Povos pré-romanos

Paulo Bocca Nunes 
Professor de Língua Portuguesa. 
Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. 
Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira; 
Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira.

 

Os mais antigos fósseis humanos na Península Ibérica datam de um período que oscila entre 1,1 a 1,2 milhões de anos. Em Portugal, os vestígios são de 500-300 mil anos a.C. Alguns fósseis encontrados indicam a presença do Homo sapiens com 24.500 anos. Entre 12 e 11 mil anos a.C., os grupos humanos presentes passaram a domesticar animais e a cultivar cereais.

Entre o terceiro milênio e o século IV a.C., várias ondas de povos indo-europeus celtas vindos da Europa Central invadiram o território, misturando-se com as populações locais, formando diferentes grupos étnicos. Entre esses estavam os galaicos, os célticos, os cónios, os iberos e os lusitanos. No mapa ao lado, podemos observar a distribuição dos povos na Península Ibérica por volta de 300 a.C.

Durante esse longo período, a península Ibérica recebeu outras levas de povos que vieram pelo mar: fenícios, gregos, cartagineses e romanos.

Sobre os lusitanos, alguns pesquisadores, inicialmente por Alexandre Herculano, e mais tarde por Oliveira Martins e Antônio Henrique de Oliveira Marques, discordam ser um tipo de antepassado dos atuais portugueses. Para eles, não é possível relacionar os limites territoriais daquele povo primitivo com o território de Portugal, nem mesmo a identidade da raça e a filiação do idioma. Por outro lado, José Leite de Vasconcelos faz uma abordagem sobre as antigas religiões de Portugal, no período da Pré-História e Antigo, em seu livro Religiões da Lusitânia, publicada entre 1897 e 1913, em que defende a partir de suas pesquisas, a ascendência dos lusitanos do povo português.

OS LUSITANOS

Estrabão ainda se refere aos lusitanos como sendo dados à formação de emboscadas, rápidos e bons em manobras. Armavam-se de um escudo pequeno côncavo na frente, um punhal ou um cutelo, além de dardos e lanças. Usavam uma couraça de linho e elmos. Antes de entrarem em combate, os guerreiros lusitanos batiam em seus escudos e cantavam hinos, numa forma de intimidarem o inimigo. Historiadores romanos da época afirmam que as mulheres também iam para o campo de batalha e lutavam tão bravamente quanto os homens.

Segundo o historiador grego, Estrabão (63 a.C. – 24), a Lusitânia era uma região onde habitava uma poderosa nação ibérica que resistiu bravamente às armas romanas, os lusitanos. Viviam em castros que eram povoações rodeadas de muros de pedra solta construídos no alto dos montes. As casas eram também de pedra solta, cobertas por colmo. As casas eram posicionadas o mais próximo possível umas das outras, guardando um espaço para ruas, ou pequenas passagens entres as casas. Esses povoados poderiam ter entre centenas e até milhares de pessoas.

Sobre os lusitanos, muitos pesquisadores apresentam divergências. De acordo com Adriano Vasco Rodrigues, os lusitanos não tinham relacionamento étnico com os celtas. O autor recorreu a três elementos que considerou importantes e relevantes em seus argumentos: a língua, o vestuário e as táticas de guerra, todos diferentes entre os celtas e os lusitanos. No entanto, ele não descarta influências culturais dos celtas sobre os lusitanos, pois entre os povos deve ter havido algum tipo de contato. Apesar dessa afirmação, Rodrigues apresenta topônimos em terras lusitanas que são derivados do celta. Da mesma forma, ele nos mostra uma aproximação da religião e dos deuses celtas entre os lusitanos.

Castro de São Lourenço, Portugal, com casa reconstruída.

Existem três inscrições rupestres que foram reconhecidas como sendo lusitanas, mas foram escritas em alfabeto latino, tendo inclusive algumas expressões em latim. Foram identificadas como sendo posteriores ao século I ou III.

Os lusitanos resistiram à invasão romana a partir de 193 a.C. e seguram até 60 a.C. com a vitória do exército comandado por Júlio César. Um dos mais célebres líderes da nação lusitana foi Viriato (180 a.C. – 139 a.C.) que confrontou os romanos com bravura, mas foi derrotado por seguidores que foram seduzidos por dinheiro oferecido pelos romanos. Apesar disso, os mesmos que traíram foram mortos ou escravizados.

Por outro lado, de uma forma crítica, o professor Dr. João Lupi afirma em artigo da revista Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos que alguns grupos celtas poderiam ter se estabelecido em terras lusitanas e contribuído não apenas para a formação cultural como também para a composição étnica dos lusitanos. Para ele, os lusitanos não se constituíram em um povo unitário e nada mostra que tiveram um modo de vida uniforme, tampouco eram celtas “puros”. Esse mesmo autor também afirma que, não apenas os lusitanos estiveram presentes no atual território português, mas também em partes da Espanha.

Monumento a Viriato, na cidade de Vizeu.

O personagem que se destaca entre os lusitanos, segundo os antigos historiadores romanos foi Viriato. O que esses autores afirmam é que foi, inicialmente, um pastor que se tornou caçador e soldado que lutou contra a invasão dos romanos. Afirma-se que tenha vivido nos altos Montes Hermínios da Lusitânia, atual Serra da Estrela, de onde era natural e foi eleito chefe dos lusitanos. No entanto, não se pode afirmar o ano em que nasceu. Contrária a essa ideia, outros pesquisadores, mais contemporânea, afirmam que seria inconcebível Viriato ser um líder militar a partir de tão humilde origem. Afirmam, nesse caso, que tenha tido uma origem mais aristocrática para os padrões lusitanos e fora proprietário de várias cabeças de gado, o que lhe conferiria uma riqueza.

Viriato foi descrito como um homem que seguia fortes princípios de honestidade e trato justo, sendo reconhecido por ser fiel à sua palavra nos tratados e alianças que fez. Com sua bravura e conhecimento do terreno, bem às suas estratégias de combate, infligiu duras derrotas aos romanos, principalmente nos anos de 147-146 a.C. Foi após outra derrota, dessa vez em 140 a.C., que Roma decide uma ofensiva decisiva contra os lusitanos. O general Servílio Cipião recorre ao suborno dos companheiros de Viriato, que o assassinaram enquanto ele dormia. Com a morte de seu líder, os lusitanos não tiveram como impor resistência e a vitória romana se consagrou. Porém, a figura de Viriato se consagrara e passou, com o tempo, a adquirir a status de mito e se constituiu na representação de bravura e coragem que alguns escritores, como Camões, usaram para apresentar os lusitanos como o povo que deu origem ao português.

MITOLOGIA DOS LUSITANOS

A mitologia lusitana era composta por vários deuses, bem semelhante à dos romanos. No entanto, algumas divindades lusitanas foram assimiladas pelos romanos. Entre as divindades, encontramos Atégina (deusa do renascimento, fertilidade, natureza), Cariocecus (deus da guerra na mitologia lusitana e o equivalente para o deus romano Marte e o grego Ares), Duberdicus (deus das fontes e da água), Nantosvelta (deusa da natureza e da caça, assimilada pelos romanos como sendo Diana), Sucellus (deus da agricultura e das florestas), Trebaruna (deusa da casa, das batalhas e da morte) e Turiacus (deus do poder), sendo que “tur” (de “tor”) na língua celta significaria “senhor” ou “rei”. Esse último pode ser relacionado a Thor, o deus do trovão da mitologia nórdica, também composta por elementos celtas.

Embora alguns pesquisadores afirmem que os lusitanos tinham uma parcela de origem celta, não se reconhece a existência de sacerdotes como os druidas. No entanto, é muito provável que havia uma casta sacerdotal composta por homens e mulheres que se encarregavam de cerimônias de nascimentos, casamentos, festivais sazonais e até mesmo para os casos de cerimônias guerreiras.

 

REFERÊNCIAS

DESERTO, Jorge. PEREIRA, Susana da Hora Marques. Estrabão: Geografia – Livro III, Introdução, Tradução do Grego e Notas. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016. Disponível em <https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/39957/1/Estrabao.pdf>. Acesso em 10 de junho de 2020. 

LUPI, João. Os lusitanos e a construção do ideal nacionalista português. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. Vol. 1, nº 1, 2001. Disponível em <https://ppg.revistas.uema.br/index.php/brathair/article/view/678>. Acesso em junho de 2020.

MARQUES, Antônio Henrique de Oliveira. História de Portugal: desde os tempos antigos até o governo do Sr. Pinheiro de Azevedo. Lisboa: Palas, 1977. Vol. I. Livro eletrônico disponível em <https://epdf.tips/historia-de-portugal-volume-1.html>

MARTINS, Oliveira. História de Portugal. Edições Vercial. Livro eletrônico disponível em <http://lelivros.love/book/download-historia-de-portugal-oliveira-martins-em-epub-mobi-e-pdf/>. Acesso em 28 de maio de 2019.

MARTINS, Oliveira. História de Portugal. Lisboa: Viúva Bertrand, 1882. Vol. I. Livro eletrônico disponível em <http://purl.pt/217/4/hg-32225-p/hg-32225-p_item5/hg-32225-p_PDF/hg-32225-p_PDF_24-C-R0072/hg-32225-p_0000_anterosto-309_t24-C-R0072.pdf>. Acesso em 28 de maio de 2019.

RIBEIRO, Orlando. A formação de Portugal. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa – Ministério da Educação, 1987. Livro eletrônico disponível em <repositorio.ul.pt/bitstream/10451/…/1/ICS_ACPinto_NGMonteiro_Historia_LEN.pdf>. Acesso em 28 de maio de 2019.

IMAGENS

Castro de São Lourenço em Esposende com uma casa reconstruída. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Castro#/media/Ficheiro:Castro_de_S_Louren%C3%A7o_(Vila_Ch%C3%A3_perto_de_Esposende)1499.JPG>. Acesso em 5 de junho de 2020.

 

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Apresentação

Povos Pré-Romanos

A influência do latim na língua portuguesa

Formação de Portugal

A consolidação do idioma em Os Lusíadas