3 razões para dizer que a literatura infantil é capacitadora de leitor crítico

Por muito tempo a literatura infantil era vista como uma ferramenta para ensinar as crianças. Isso era o suficiente para tornar a literatura infantil em algo “menor”. Após a segunda metade do século XX essa visão começou a mudar e hoje podemos afirmar que essa literatura pode se constituir em capacitadora de leitores críticos. Mas de que forma? É o que iremos responder neste artigo. 

Paulo Bocca Nunes (professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira).

INTRODUÇÃO

Não são apenas os professores que sabem que a literatura infantil é uma forma de incentivar a leitura desde cedo. Mas, será que podemos afirmar que a literatura infantil contemporânea é capacitadora de leitor crítico? Neste artigo irei afirmar que… SIM!

Não pretendo abordar aqui o histórico das origens da literatura infantil, pois não é o meu objetivo. Tampouco tratarei sobre as teorias que dizem o que é e o que não literatura ou literatura infantil. No entanto, creio ser necessário delimitar o que considero LITERATURA INFANTIL CONTEMPORÂNEA. Eu me baseio em mera observação empírica e experiência profissional e de leitura. 

Como Literatura Infantil Contemporânea eu entendo como aquela produzida a partir das últimas duas ou talvez três décadas do século XX. Essa delimitação temporal eu a criei a partir da minha experiência como contador de histórias. Durante muitos anos, eu fui contratado por muitas editoras para contar histórias em escolas que adotavam os livros dessas editoras. Assim, eu recebia muitos livros das editoras e, para contar as histórias, eu tinha que fazer a preparação e, para isso, várias leituras eram necessárias.

Com o tempo, e com os novos lançamentos que vinham a cada ano, eu fui percebendo que aquela literatura era muito mais do que “meras historinhas” para crianças. Chegou um momento que eu fui comparando essas histórias com outras que eu conheci quando fui criança. Aquelas eram muito diferentes. Nesse ponto, eu peço licença ao leitor para informar que na data em que escrevo este artigo (22 de abril de 2021) eu estou a menos de dois meses para completar 60 anos de idade. Portanto, eu conheci uma literatura infantil muito diferente da que conhecemos nos dias atuais.

UMA HISTÓRIA COMO EXEMPLO

Como exemplo, eu falo de um livro que teve a primeira publicação em 1896: Histórias da Avozinha, de Figueiredo Pimentel. Esse livro traz contos que são adaptações de alguns contos de fadas, há também algumas fábulas e outros que podem ser classificados como contos exemplares. De um modo geral, essas histórias antigas tinham a função de trazer ensinamentos às crianças. Em alguns casos, podemos até afirmar que trazem “moralidades” que são uma forma de ensinamento. Nas histórias vinha tudo o que as crianças precisavam saber sobre “como a sociedade funciona”. Por conta disso, as histórias daquele tempo não dava a menor abertura para um debate ou reflexão. Sequer algum tipo de contestação! Eram histórias “fechadas”! Se constituía, portanto, em um produto pronto e acabado para ser consumido, ouvido ou lido, aceito e seguido! 

Diferente dessa literatura há o que eu chamo de LITERATURA INFANTIL CONTEMPORÂNEA. Essa sim está mais voltada para um debate ou uma reflexão, questionamentos ou posicionamentos do público leitor que são as crianças. Para comprovar essa minha afirmação, eu analisei três obras infantis em 2010 que deram origem a um livro de minha autoria, Literatura Infantil Contemporânea: capacitadora de leitor crítico.

A obra que tratarei neste artigo é O pintinho que nasceu quadrado, de Regina Chamlian e publicado pela editora Global em 2007. A narração dessa história está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=UK8GnPus4t8.

A história gira em torno de uma jovem galinhazinha chamada Carola que vivia em um galinheiro onde havia muitas galinhas que passavam o dia todo e todos os dias apenas ciscando e pondo ovos e mais ovos. Certo dia, ela pôs um ovo, mas para surpresa e espanto de todas as outras galinhas o ovo de Carola era quadrado. Por considerarem aquilo um fato grave, chamaram o galo que, mesmo tentando tranquilizar Carola, ordenou que ela colocasse aquele ovo fora e passasse a por “ovos normais”. Carola ficou indignada com a proposta e, por conta disso, foi expulsa daquele galinheiro.

Carola passou a procurar um lugar para chocar o seu ovo, mas em cada lugar que ia sempre encontrava algum animal que vivia por ali. Com alguma dificuldade, ela fez um ninho e chocou o ovo. Alguns dias depois nasceu o seu pintinho… quadrado!

Carola tentou procurar um lugar para os dois, mas por onda passava chamava a tenção de outros animais que debochavam do pintinho quadrado. Em outro galinheiro, uma galinha que era a chefe, não aceitou Carola por causa do pintinho. 

Chegou a noite e Carola e o pintinho não tendo onde ficar, passam a noite ao relento. O pintinho passa a questionar sua mãe sobre os motivos que fazem com que outros animais não gostem dele. Carola tenta acalmar seu filho dizendo que ela o ama, mas o pintinho segue questionando a sua mãe sobre o assunto. Nesse ponto, eu gostaria de abrir parêntesis para apresentar um relato sobre uma experiência que vivi. 

Certa vez, eu contei essa mesma história na Sala Lili Inventa o Mundo, da Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, RS. O público era de uma escola infantil e a idade era entre 4 e 5 anos de idade. Quando eu cheguei nessa parte da história, em que o pintinho indagava de sua mãe sobre o que os outros animais faziam com ele, uma menina da plateia, sentada mais à frente, gritou: “Não tem importância nenhuma em ser diferente”. Em seguida, um garoto que estava nas últimas cadeiras se levantou, subiu na cadeira e começou a falar que não estava certo o que o pintinho e a mãe dele estavam passando. A partir daí todas as crianças começaram a falar sobre isso. Eu percebi o espanto das professoras que acompanhavam as crianças. Também parei de contar a história para ver e incentivar a reação das crianças. Eu vi ali que era o momento delas terem um posicionamento e se manifestarem. As crianças estavam se identificando com os personagens e percebendo todas as dificuldades que estavam enfrentando. Depois de algum tempo, eu retomei a história e fui até o fim.

O restante da história diz que, ao acordarem, Carola e o pintinho viram diante deles, alguns animais impressionantes: um coelho triangular, um elefante trapeizoidal, uma girafa espiral, um papagaio retangular, uma tartaruga piramidal, um macaco redondo pato hexagonal. Depois de conversarem um pouco, Carola pergunta o que aqueles animais estão fazendo. Um deles responde que todos eles estão indo em busca de um lugar em que poderão construir um mundo melhor, em que ninguém se importe se alguém é assim ou assado.

Carola pede para acompanhar os animais “diferentes” e segue uma bela caravana pela estrada e pelos campos. No caminho, outros animais que “não eram diferentes” perguntam aonde ia aquele grupo. A resposta era sempre a mesma: “Estamos indo construir um mundo melhor” e com essa resposta todos se sentiam animados a irem junto. A história termina de forma surpreendente. 

Na última página há uma ilustração de todos aqueles animais, “diferentes” e “não diferentes” seguindo pela estrada e uma frase apenas: “E lá foram eles!”. Algo totalmente diferente dos velhos contos tradicionais que sempre terminava com “E foram felizes para sempre!”.

Sempre que eu contava essa história, as crianças ficavam surpresas, pois queriam saber se os animais encontraram o lugar que procuravam e se conseguiram construir um mundo melhor. De minha parte, eu devolvia a pergunta: “O que vocês acham?”. De um modo geral, as crianças sempre diziam que SIM, eles conseguiram, pois era o que eles queriam. Também vejo o jovem leitor, ou ouvinte dessas histórias literárias e contemporâneas, como alguém que quer dizer o que pensa a respeito do que ouve ou lê. Eu vejo como muito importante dar voz para esses pequenos para que possam ir desenvolvendo o seu lado crítico. E a literatura contribui para esse propósito. 

Essa história, ao seu final, abre para várias perguntas: Os animais conseguiram construir um mundo melhor? Como eles poderiam fazer isso? Será que todos podem participar desse mundo melhor? E por aí vai.

AS TRÊS RAZÕES SOBRE A LITERATURA INFANTIL CONTEMPORÂNEA

Esse artigo eu também apresento em forma de vídeo no meu canal do YouTube. Você pode assisti-lo em https://www.youtube.com/watch?v=NZF4V44x4tA&t=80s.