O Impressionismo: origens e a estética literária em “O Ateneu”, de Raul Pompeia.

O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA

Origens

O Impressionismo foi um movimento artístico surgido entre grandes pintores na França em 1874, criando uma nova visão conceitual da natureza, retratando nas telas os reflexos e efeitos que a luz do sol produz nas cores da natureza. Uma mudança no ângulo destes raios implica na alteração de cores e tons. Seria muito comum um mesmo motivo ser retratado diversas vezes no mesmo local, porém com as variações causadas pelas mudanças nas horas do dia e nas estações ao longo do ano.

O movimento impressionista teve início com a primeira exposição do grupo no ateliê do fotógrafo Maurice Nadar. A denominação Impressionismo foi dada a partir de uma declaração pejorativa do crítico de arte francês Louis Leroy ao ver a tela de Monet Impression du Soleil Levant, de 1872.

Principais Características

  1. A pintura deve registrar as tonalidades que os objetos adquirem ao refletir a luz solar num determinado momento, pois as cores da natureza se modificam constantemente, dependendo da incidência da luz do sol.
  1. As figuras não devem ter contornos nítidos, pois a linha é uma abstração do ser humano para representar imagens.
  1. As sombras devem ser luminosas e coloridas, tal como é a impressão visual que nos causam, e não escuras ou pretas, como os pintores costumavam representá-las no passado.
  1. Os contrastes de luz e sombra devem ser obtidos de acordo com a lei das cores complementares. Assim, um amarelo próximo a um violeta produz uma impressão de luz e de sombra muito mais real do que o claro-escuro tão valorizado pelos pintores barrocos.
  1. As cores e tonalidades não devem ser obtidas pela mistura das tintas na paleta do pintor. Pelo contrário, devem ser puras e dissociadas nos quadros em pequenas pinceladas. É o observador que, ao admirar a pintura, combina as várias cores, obtendo o resultado final. A mistura deixa, portanto, de ser técnica para se óptica.

IMPRESSIONISMO NA LITERATURA

No final do século XIX e início do XX, várias tendências se cruzaram na literatura configurando um fenômeno conhecido por sincretismo:

– Realismo;

– Naturalismo;

– Parnasianismo;

– Simbolismo.

Junto com estas, surge uma outra reconhecida mais recentemente: O IMPRESSIONISMO.

Contexto histórico

A partir do último quartel do século XIX, a Europa está desgastada por guerras e revoluções. Na França ocorre uma série de mudanças:

– O Estado assume responsabilidades para com a Saúde, Educação e Trabalho;

– Surgem novos meios de transporte e processos de comunicação;

– Canalizações, esgotos, estações e mercados, bem como parques, boulevards e edifícios públicos;

– A iluminação vem permitir a circulação à noite, sendo, então, possível as exposições de arte estarem abertas até mais tarde.

Outras características deste período são o Capitalismo e a industrialização em ascensão, bem como o avanço das ciências e técnicas.

São criações desta época o telefone, a eletricidade, o cinema e a fotografia, grandes símbolos de modernidade.

Surgimento do impressionismo na literatura

Ao longo da década de1880, o Naturalismo declina como movimento literário. Inicia um movimento gerado pelo cansaço com a pintura da crua realidade, e com a crença que a arte e a natureza se identificam. Como fenômeno literário, o surgimento do Impressionismo se dá com a fusão de alguns princípios do Realismo/Naturalismo e do Simbolismo. Segundo Afrânio Coutinho, o Impressionismo é a confluência do Simbolismo com o Naturalismo e esse processo “viria influir na gênese do Modernismo” (COUTINHO, p. 209).

Ao contrário da objetividade característica do Realismo/Naturalismo, o que o Impressionismo pretende é registrar as impressões que a realidade provoca no espírito do artista/personagem, no momento em que se dá a impressão. Não se trata, portanto, de mostrar ou descrever o objeto como ele é visto, mas como ele é sentido ao ser visto.

Características da literatura Impressionista

– Captação da verdade do instante: a vida é um mudar constante e cada paisagem é única em cada momento do dia. O artista deve captar a impressão desse momento único;

– Valorização dos estados de alma, das emoções, que são mais destacados que o enredo ou a ação na narrativa. Importa mais o efeito do que a estrutura na técnica da composição literária.

– Importância maior às sensações das coisas do que às coisas em si.

– Registro e ênfase das impressões, emoções e sentimentos despertados no espírito do artista, através dos sentidos, cenas, incidentes, caracteres.

– Relevo à percepção visual do instante: valoriza-se a cor, a atmosfera, o efeito dos sons.

– Interpretação da natureza: invenção da paisagem mais do que uma descrição objetiva;

– A técnica de narrativa tem estrutura e convenções diferentes do tradicional: o enredo segue o estado momentâneo de espírito.

– A importância maior passa a ser das sensações e emoções criadas do que aos acontecimentos, e estes passam a segundo plano;

Sobre a linguagem impressionista

– Abandono da estrutura regular da frase, da ordem lógica;

– Preferência pela ordem inversa, pelo anacoluto;

– Supressão da conjunção;

– Emprego frequente do pretérito imperfeito nas formas verbais;

– Uso acentuado de metáforas e comparações;

– Linguagem expressiva, colorida, sonora;

– Liberdade de expressão, riqueza de imagens.

O IMPRESSIONISMO PRESENTE EM O ATENEU, DE RAUL POMPEIA

A história é narrada em primeira pessoa, e o narrador é o protagonista, Sérgio. Os acontecimentos fazem parte da memória de Sérgio, que é quem narra, vive e observa os acontecimentos passados no Ateneu, um internato para meninos, quando ele ali entrou pelas mãos de seu pai aos 11 anos deidade.

O romance é de introspecção onde o narrador nos apresenta um universo em que viveu e marcou a sua vida. Sua análise é dissecante, revelando as entranhas deum universo cheio de mazelas que o oprimiam.

Para alguns estudiosos, o romance, que é escrito em doze capítulos, pode ser dividido em quatro partes:

  1. Apresentação do Ateneu antes da entrada de Sérgio (capítulo I);
  1. O primeiro ano de Sérgio no internato (capítulos II ao VII);
  1. O segundo ano de Sérgio no internato (capítulos VIII ao XI);
  2. A destruição do Ateneu pelo incêndio (capítulo XII).

É possível encontrar em O Ateneu traços de vários estilos de época na Literatura que vai desde o Realismo até o Simbolismo. Porém, há uma preponderância do Impressionismo pelas descrições subjetivas da personagem-narrador. As personagens que vão surgindo pela voz do narrador têm as características do Realismo. A ótica Naturalista aparece em Aristarco, o diretor do Ateneu; a concupiscência e licenciosidade de Ângela, a empregada de Ema, esposa de Aristarco; e o homossexualismo entre os alunos.

As afirmativas de que também é um romance Simbolista não resistem a uma análise mais profunda. O Impressionismo, como estética literária, surge no Brasil com o romance O Ateneu, em 1888, enquanto o Realismo e Naturalismo são inaugurados oito anos antes com Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e O Mulato, de Aluísio Azevedo. Por sua vez, o Simbolismo se faz presente verdadeiramente com Cruz e Sousa, em 1893, com suas duas obras renovadoras: Broquéis e Missal. Se observarmos toda a produção poética, e de suas características, ela sempre apresentará traços simbólicos, mesmo não pertencendo especificamente ao Simbolismo.

Ao lermos O Ateneu, observamos profundos estados de alma quando o narrador Sérgio nos apresenta o colégio. Estes estados de alma são motivados pela impressão momentânea de quando foram captadas e do afastamento do narrador-observador depois de tantos anos passados dos acontecimentos. O narrador valorizou mais os estados de alma e as emoções do que o enredo ou a ação na narrativa. A construção do texto nos permite perceber uma relevância maior à percepção visual do instante em que vê em cada hora do dia, ao ar livre como os pintores franceses o faziam, valorizando a cor, a atmosfera, o efeito dos sons.

“Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo — a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.” (p.11)

As comparações, que também são uma das características do Impressionismo, aparecem como na passagem em que Sérgio fala do letreiro do colégio e de como ele o via à noite.

“Erigia-se na escuridão da noite, como imensa muralha de coral flamante, como um cenário animado de safira com horripilações errantes de sombra, como um castelo fantasma batido de luar verde emprestado à selva intensa dos romances cavalheirescos, despertado um momento da legenda morta para uma entrevista de espectros e recordações. Um jacto de luz elétrica, derivado de foco invisível, feria a inscrição dourada ATHENÆUM”. (p.19)

O texto é a criação de um cenário, uma paisagem através do ponto de vista do personagem-narrador. Por ser ele um narrador já adulto, à medida que se distancia do tempo de estudante, esta imagem mais se acentua e o envolve subjetivamente. Sendo assim, Sérgio nos diz como vê um de seus colegas de forma tão pejorativa e distorcida de imagem e no entanto, causa um efeito completamente diferente em sua alma:

“Ribas, quinze anos, era feio, magro, linfático. Boca sem lábios, de velha carpideira, desenhada em angústia — a súplica feita boca, a prece perene rasgada em beiços sobre dentes; o queixo fugia-lhe pelo rosto, infinitamente, como uma gota de cera pelo fuste de um círio…

Mas, quando, na capela, mãos postas ao peito, de joelhos, voltava os olhos para o medalhão azul do teto, que sentimento! Que doloroso encanto! que piedade! um olhar penetrante, adorador, de enlevo, que subia, que furava o céu como a extrema agulha de um templo gótico!

E depois cantava as orações com a doçura feminina de uma virgem aos pés de Maria, alto, trêmulo, aéreo, como aquele prodígio celeste de garganteio da freira Virgínia em um romance do conselheiro Bastos.

Oh! não ser eu angélico como o Ribas! Lembro-me bem de o ver ao banho: tinha as omoplatas magras para fora, como duas asas!” (p.45).

Outras comparações no romance são tão fortes que é possível sentir os sabores e os cheiros através da forma como é descrita, ou sentida:

“A seu turno a gramática abria-se como um cofre de confeitos pela Páscoa. Cetim cor de céu e açúcar. Eu escolhia a bel-prazer os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais da mais agradável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me à roda, próprios e apelativos, como criaturinhas de alfenim alado; a etimologia, a sintaxe, a prosódia, a ortografia, quatro graus de doçura da mesma gustação. Quando muito, as exceções e os verbos irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados a boca saborosíssimos.” (p.36)

A palavra alfenim refere-se a uma massa muito branca de açúcar.

Além da comparação, o autor faz uso também, com muita frequência, de outras figuras de estilo, como a hipérbole[1] e a metáfora:

“Aristarco arrebentava de júbilo!” (p.45; hipérbole);

“O Ateneu é uma sementeira uma horta” (p.92; metáfora);

“Um olhar penetrante, adorador, de enlevo, que subia, que furava o céu como a extrema agulha de um templo gótico”. (p.106; hipérbole e comparação).

Além de outras, o autor usa, com frequência, construções clássicas, hoje pouco comuns, como a colocação apossinclítica[2] do pronome:

“disse que me não interessavam as intrigas”.

É comum também o uso da hipálage[3]:

“As eminências de sombria pedra e a vegetação selvática debruçavam sobre o edifício um crepúsculo de melancolia…” (p.15)

SOBRE RAUL POMPEIA

Raul d’Ávila Pompéia nasceu em Angra dos Reis, Estado do rio de Janeiro, a 12 de abril de 1863. Fez o curso de humanidades no Colégio Pedro II, que terminou em 1880. Iniciou o curso de Ciências Jurídicas e sociais em São Paulo e terminou em recife, em 1886. Desempenhou os cargos de secretário da Escola Nacional de Belas Artes, de diretor da repartição de Estatística do Rio de Janeiro, de diretor do Diário Oficial e da Biblioteca Nacional. Poeta e prosador, colaborou na imprensa de São Paulo e do Rio, sendo sempre muito apreciado. Era hábil desenhista e dizem que também escultor. Suicidou-se em sua própria casa, no dia 25 de dezembro de1895.

Além de O Ateneu (1888), também escreveu Uma Tragédia no Amazonas, prosa, obra de estreia (1880) e Canções Sem Metro (1881).

Para Estevão Cruz e José Mesquita, Raul Pompéia foi um impressionista admirável, comparado à Aluísio Azevedo. Já Agripino Grieco afirma que ninguém descreveu melhor “a promiscuidade de prisão ou lazareto de uma dessas casas de ensino, as amizades amorosas, as preferências e os ódios, os contatos obrigatórios, náuseas e simpatias, o pavor diante da férula e do compêndio, a espionagem do bedel feitorando os pobres alunos..” (CARVALHO, p.634)

Por sua vez, José Veríssimo coloca Raul Pompéia entre os Naturalistas junto com Aluísio Azevedo e Júlio Ribeiro. Para ele, O Ateneu é a “amostra mais distinta, se não a mais perfeita, do Naturalismo no Brasil” e acentua a originalidade da obra revelado “na abundância, roçando acaso pela demasia, de ideias e sensações não raro esquisitas e sempre curiosas” (VERÍSSIMO, p.262-3)

 

[1] É uma figura de linguagem que exagera uma afirmação.

[2] Intercalação de palavras entre o verbo e o pronome átono.

[3] Figura pela qual se atribui acertas palavras de uma frase o que convém logicamente a outras da mesma frase, claras ou subentendidas.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *