Viagens de Gulliver: uma transmutação de linguagens

Paulo Bocca Nunes 
Professor de Língua Portuguesa. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira; Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira.

A literatura é a linguagem escrita de forma poética. Não que toda literatura seja poesia, mas pelo fato de nos apresentar um mundo imagético possível em que o narrador da história nos leva a viajar por cenários que ele explica sob o seu ponto de vista único. Os personagens, que desenvolvem as ações através do olhar clínico do mesmo narrador, muitas vezes nos cativam de modo a nunca mais esquecê-los. Mais que isso: sobrevivem ao próprio tempo e vai por gerações e gerações a encantar os leitores. Mesmo que os tempos mudem, as pessoas mudem, o contexto mude, ainda assim o texto, sendo exatamente o mesmo, permanece cativante e cheio de novas ideias a cada leitura. Sobre isso, o escritor italiano Ítalo Calvino nos afirma que a literatura nunca termina de nos dizer tudo. Ou seja, mesmo que façamos uma nova leitura, mas em épocas diferentes de nossas próprias vidas, a literatura ainda vai nos dizer algo que não havíamos percebido. É claro que, à medida que vamos amadurecendo como pessoas ou mesmo como leitores, vamos encontrando outro texto por trás do mesmo texto.

A História da Literatura nos apresenta períodos literários em que figuraram as obras mais expressivas, tornando-se muitas delas em clássicos mundiais. Uma das mais lembradas dessas obras é As viagens de Gulliver, do irlandês Jonathan Swift (1667-1745). Publicado em 1726, a obra teve várias reimpressões e, séculos mais tarde, também teve diversas adaptações para outras linguagens que não a literária, ou a escrita, como é o caso do teatro, que se constitui em um tipo de linguagem muito frequente nas adaptações literárias. Ao longo de quase trezentos anos, As viagens de Gulliver foi se mostrando como uma obra permanentemente inquietante e provocadora de debates, mesmo que atualmente ela seja vista mais como uma obra voltada para o público infantojuvenil.

Jonathan Swift por Charles Jervas, 1º de janeiro de 1710.

A partir das primeiras décadas do século XX, com a consolidação do rádio, da TV e do cinema, surgem as adaptações de romances para essas mídias. Se antes as obras circulavam entre os leitores, um de cada vez, as produções das adaptações passariam a alcançar um número muito maior de pessoas de todas as classes sociais. À medida que circulavam, foram se integrando à chamada cultura pop. Com a prática constante de adaptações de romances, um produto muito forte nas instituições de ensino, foram surgindo questionamentos e debates sobre a possibilidade de incentivo à leitura do texto tendo a mídia radiofônica, televisiva ou cinematográfica como apoio.

Debates à parte, não se pode esperar que a linguagem literária seja plenamente reproduzida em outras mídias. No caso do romance será o narrador que nos guiará pela história, irá nos contar os acontecimentos, descreverá os cenários e ações dos personagens. A nossa imaginação irá se encarregar de construir as imagens de todos esses aspectos e será diferente de um leitor para outro. Sempre haverá algum detalhe diferente, de um leitor para outro. Enquanto isso, a TV e o cinema nos mostram o que imaginamos através da leitura e, algumas vezes, não nos mostrará aquilo que imaginamos pela descrição do narrador. Não raras as vezes, ficamos frustrados quando vemos na tela do cinema ou da TV aquele personagem que imaginamos na leitura. Por outro lado, houve surpresas que nos levaram para muito além do que lemos.

A adaptação de uma obra literária em uma linguagem diferente se constitui em uma experiência totalmente diferente, ou seja, a experiência de ver, perceber, interpretar uma história a partir do ponto de vista de outra pessoa que não aquela do livro, o narrador literário. O adaptador se apresenta como um autor que se valerá de um argumento que será encontrado no romance em que se baseia a sua adaptação. Isso significa dizer que, de certa forma, mesmo sendo baseado na obra literária, a adaptação será outra obra e, além disso, autoral.

Nesse processo, há um momento curioso e instigante para quem faz a adaptação do texto literário: perceber os elementos presentes na obra que torna possível a adaptação para outra linguagem, usar de criatividade e transformar em algo possível, mas de forma a não afetar a obra original. Toda adaptação, no entanto, vai levar em conta o seu tempo. O texto original teve o seu tempo, o seu contexto social e econômico, além de uma forma muito particular de como a sociedade via ou percebia o mundo. Porém, a adaptação colocará os olhos no seu próprio tempo, observará a movimentação do seu mundo atual para ter o direito de sua própria existência. Como qualquer processo criativo, isso pode dar certo ou não. O público pode gostar ou não. Também não significa que a obra original sofrerá algum arranhão, pois seja qual for a adaptação, essa sempre será comparada com o texto original e não o contrário.

Veremos a seguir algumas adaptações de As viagens de Gulliver em linguagens diferentes da escrita e suas adaptações para o público infantojuvenil. Vamos focar nas mídias de TV e cinema por serem muito prestigiadas e de grande circulação entre as massas. Colocaremos um olhar sobre como elas puderam ser próximo, ou não, do texto original e quais as influências na cultura pop da atualidade.

SOBRE A OBRA ORIGINAL DE SWIFT

O livro foi publicado em 1726 com o título Viagens a várias nações remotas do mundo, em quatro partes, por Lemuel Gulliver, primeiro um cirurgião e depois um capitão de vários navios. O titulo foi alterado em 1735 para As viagens de Gulliver. O romance narra as viagens do personagem principal por várias nações vivenciando as experiências e o funcionamento de suas sociedades. Alguns analistas de literatura identificam o romance como uma crítica social de Swift para a situação da Inglaterra de sua época. Hoje, depois de várias reimpressões do romance e das diversas adaptações para TV e cinema, é considerado como um dos clássicos da literatura universal.

Primeira edição de “As viagens de Gulliver”, de 1726.

A história é narrada em primeira pessoa, pelo próprio Lemuel Gulliver. A obra é dividida em quatro partes, cada uma em um território diferente e marcado por peculiaridades dos povos e de suas sociedades.

Primeira viagem – Depois de estudar fundamentos de medicina, matemática e artes de navegação, Gulliver casa-se com Mary Burton, filha de um negociante de meias, com quem teve dois filhos. Depois de algum tempo, Gulliver parte da Inglaterra em um navio tendo como destino os mares do sul na função de médico cirurgião. Em meio à viagem, o navio naufraga após forte tempestade. Único sobrevivente, Gulliver é carregado pelas ondas até a praia de uma ilha desconhecida. Ao acordar, ele percebe que foi amarrado dos pés à cabeça por homens minúsculos de aproximadamente 15 centímetros de altura que o tomam por um inimigo gigante. Mais tarde Gulliver descobre que a ilha é chamada de Lilliput, conquista a confiança dos lilliputianos e os ajuda na guerra contra os inimigos do país vizinho chamado Blefuscu. O motivo da guerra: em Lilliput quebram-se os ovos pela parte mais fina da casca, enquanto em Blefescu os ovos são quebrados pela parte da mais grossa. Após evitar um ataque dos navios de Blefescu a Liliput, e negar-se a destruir os navios inimigos, Gulliver obriga os dois países a assinarem um tratado de paz. Acusado de traição pelos liliputianos por manter boas relações com os habitantes de Blefuscu, Gulliver não vê alternativa senão ir embora da ilha. Então, ele encontra um barco abandonado na praia e parte da ilha. Em determinado momento ele é avistado por um navio e levado de volta à Inglaterra. Finalmente chega em sua casa depois de três anos ausente.

Segunda viagem – Gulliver permaneceu dois meses sua cidade natal com a mulher e os filhos e parte para sua segunda viagem. Após outra tempestade e ser atacado por piratas, ele é abandonado pela tripulação em um barco. Assim ele chega a uma ilha chamada Brobdingnag onde vivem gigantes com mais de vinte metros de altura. Ao ser capturado, Gulliver se torna uma atração turística. Após passar por muitas dificuldades, ele passa a viver em uma casa de bonecas de madeira, até que uma águia gigante a rouba e o deixa cair no mar. Ele é resgatado por um navio que o leva novamente de volta ao seu país. Reencontra sua família após quatro anos.

Terceira viagem – Gulliver é feito prisioneiro por piratas e abandonado em uma ilha rochosa perto da Índia. Porém, ele é resgatado pela ilha voadora de Laputa, um reino que se dedica às artes musicais, matemáticas, astronômicas e a ciência em modo geral, só que são incapazes de reproduzi-las para fins práticos. O traje dos laputianos é de jogar pedras em cidades rebeldes no solo. Ficou pouco tempo e partiu para Glubbdubdrib, a terra dos feiticeiros e bruxos. Os habitantes praticam a necromancia e Gulliver conversa com vários personagens importantes da história. Depois de muitas peripécias, Gulliver chega ao Japão, mas volta para casa depois de cinco anos.

Quarta e última viagem – Gulliver volta ao mar como capitão de um navio mercante. Em meio à viagem foi traído pelos seus homens que o abandonam em um bote e assim ele chega ao país dos Houyhnhms, governado por cavalos que agiam como criaturas racionais, enquanto os humanos, chamados de yahoos, eram seres bestiais, com total falta de inteligência e racionalidade. Gulliver admira os cavalos racionais e passa a imitar o estilo de vida deles. Porém, os Houyhnhms decidem expulsá-lo por ser muito parecido com um Yahoo. Gulliver constrói um barco e retorna à Inglaterra depois de outros cinco anos. Ao voltar para casa, ele fica recluso, não fala com seus familiares e compra dois cavalos com quem passa boa parte do tempo conversando.

A obra de Swift está repleta de profundas reflexões sobre a sociedade da época. Para isso foram utilizados os diálogos entre Gulliver e os habitantes da cada terra por onde ele passou e conviveu. Por esse aspecto, não se pode dizer que As Viagens de Gulliver foi um romance concebido originalmente para o público infantil ou infantojuvenil. Conforme já informamos, trata-se mais de uma sátira ou crítica sobre o ser humano e as instituições sociais da Inglaterra do tempo do escritor irlandês. Em forma de narrativa de viagens, Swift buscou expressar a sua indignação em relação à corrupção, aos vícios, à maldade humana e os abusos de poder dos governantes.

Mas… e quanto às adaptações? Seguiram pelo mesmo caminho?

ADAPTAÇÕES DA OBRA DE SWIFT

A obra de Swift inspirou adaptações, inicialmente no teatro e mais tarde foi a vez da música, do cinema e da TV. No teatro, as adaptações ficaram centradas nas aventuras em Lilliput e na Terra dos Gigantes com o uso de atores reais e de bonecos. Também muitos compositores musicais contribuíram com a sua arte. A primeira foi em 1728, dois anos após o lançamento do romance, uma suíte para violinos composta pelo Georg Philipp Telemann. Em 2008, o músico e produtor italiano, Andrea Ascolini, gravou uma versão moderna. Outras canções foram gravadas pelas bandas No More Kings e The Yellow Moon Band e pelo cantor espanhol Miguel Bosé.

No ano de 1999, a Rádio Pública Nacional (NPR na sigla em inglês) sediada em Washington, EUA, fez uma adaptação radiofônica das aventuras de Gulliver em Lilliput. Essas adaptações seguem mais ou menos o roteiro do livro: há um narrador que descreve todo o ambiente e o desenvolvimento da trama e os personagens surgem falando. A diferença mais marcante nesse tipo de linguagem é o surgimento de efeitos sonoros e de trilha musical, algo que não há na narrativa escrita.

No entanto foi o cinema e a TV que mais contribuíram para trazer outras formas de perceber, de entender, de reconstruir a obra do escritor irlandês. Neste artigo abordaremos as seguintes adaptações do texto de Swift para o cinema e a TV:

1. Le voyage de Gulliver à Lilliput et chez les géants (As viagens de Gulliver entre os liliputianos e os gigantes), 1902.

Filme mudo dirigido por Georges Méliès é considerada a primeira adaptação que se tem conhecimento. Foi lançdo em 1902 na França e 1903, nos EUA. A duração é pouco mais de 4 minutos e pode ser assistido no link abaixo: https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=DQkEyRB08Ic.

Cena do jantar de Gulliver em Lilliput. Filme dirigido por Georges Méliès, de 1902.

No filme, o personagem Gulliver é representado como um homem de idade avançada na ilha de Liliput. Não há qualquer referência se ele tem família. O filme começa com Gulliver chegando à noite na cidade dos liliputianos. Não há explicação de como ele chegou lá. Gulliver adormece e, quando acorda, está amarrado e os liliputianos estão atirando flechas nele. O filme passa de repente para Gulliver fazendo uma refeição servida pelos liliputianos. O rei vai visitá-lo e em seguida surge um incêndio que Gulliver apaga com uma garrafa de água gaseificada. O filme passa direto para três homens que jogam cartas. Surge uma mulher que traz um lenço em forma de embrulho e coloca sobre a mesa. De dentro do lenço surge Gulliver e então entendemos que ele está na terra dos gigantes. Muito pequeno, ele não pode ser ouvido, então sobre numa escada para se fazer entender pela mulher. Ela ri e com um aceno de mão o deixa cair dentro de uma xícara de café.

2. The New Gulliver (O novo Gulliver), 1934.

O filme, dirigido por Aleksandr Ptushko, é uma produção da antiga União Soviética (USSR) de stop motion com o uso de fantoches. O começo e o final do filme tem a participação de atores reais.

A história está centrada em um garoto que ganha um livro que é o seu favorito, As viagens de Gulliver. Ele e seus colegas, no período de férias escolares, partem em um navio com seu professor e chegam em uma pequena ilha. Lá, o professor lê a história do livro para todos ouvirem, mas o garoto acaba dormindo. Ele sonha que é uma versão de Gulliver que desembarcou em Lilliput, comandada por um rei e sua corte que vivem de forma abastada às custas da classe trabalhadora, subjugada a trabalhar duro e em péssimas condições. Durante um banquete com o rei e sua corte, Gulliver canta uma canção que fala em liberdade e de trabalhadores livres, o que assusta a todos. O chefe de polícia e outros da corte decidem matar Gulliver. Os trabalhadores tomam conhecimento do fato, pois eles trabalham na fábrica de armas que serão usadas contra o próprio Gulliver, mas ele é avisado por um trabalhador. Os trabalhadores se revoltam, param de trabalhar e vão ajudar Gulliver, começando a destruir a fábrica de armas e tomar posse dela. Na batalha final, entre o exército do rei e os trabalhadores, Gulliver captura a frota de navios do rei e a leva para longe, os trabalhadores vencem e o rei é destituído. O garoto acaba acordando de seu sonho e vê os seus colegas rindo dele, pois durante o sonho ele falava. O filme, em russo e legendas em inglês, está disponível no YouTube e pode ser assistido em https://www.youtube.com/watch?v=CkW8v_qbQbI.

3. Gulliver’s Travels (As viagens de Gulliver), 1939.

Filme de animação dirigido por Dave Fleischer e produzido por Max Fleischer para o Fleischer Studios e distribuído pela Paramount Pictures. Em forma de um musical, não se trata de uma adaptação de todo o livro, mas apenas a breve permanência de Gulliver na ilha de Lilliput.

O roteiro é apresentado como um conto de fadas e fica um pouco mais centrada na história de amor entre a filha do rei da Lilliput e o filho do rei de Blefuscu. Por causa da desavença entre os dois reis por causa da escolha do hino que deveria ser tocado e cantado no dia do casamento, ou de Lilliput ou de Blefuscu, foi declarada guerra entre os dois países. Há muitas cenas de canções interpretadas pelos personagens principais, algo bem ao gosto das animações da época. O filme serve como entretenimento também, pois os personagens de Lilliput e Blefuscu são representados como desenho animado, enquanto que Gulliver tem traços realistas. Pelo tipo de desenho animado, lembra em muito o filme de Branca de Neve e os Sete anões, de 1937, dois anos antes, portanto. Ainda assim, o filme teve indicação ao Oscar (prêmio máximo da academia de cinema dos Estados Unidos) para melhor música original. Também nessa adaptação não há referência a Gulliver ter uma família, mas há uma cena em que ele observa o mar à noite e canta uma canção que fala de saudade. Quase ao final do filme há a invasão dos navios de Blefuscu, mas Gulliver obriga os dois países a assinarem um tratado de paz, um pouco parecido com o que há no livro. O filme termina com Gulliver partindo em um barco acenando para todos que o observam na beira da praia. O filme completo, com dublagem em português pode ser assistido neste link https://www.youtube.com/watch?v=NEN9TU6XRAc&frags=pl%2Cwn.

4. The 3 Worlds of Gulliver (Os 3 mundos de Gulliver), de 1960.

O clássico da literatura teve sua versão para o cinema com roteiro e direção de Jack Sher e no elenco Kerwin Mathews e Jo Morrow. No enredo, temos o médico Lemuel Gulliver (Kerwin Mathews) como um médico cirurgião muito pobre que busca riquezas como médico de um navio que fará uma viagem ao redor do mundo. A sua noiva, Elizabeth, tenta dissuadi-lo da ideia e os dois acabam brigando.

Gulliver embarca no navio e logo depois descobre que sua noiva está a bordo, pois pretende ficar perto dele. Uma tempestade destrói o navio e Gulliver é levado pelo mar até uma ilha. Depois de constatar o desaparecimento de sua noiva, Gulliver tem contato com os pequenos habitantes da ilha, que chamam de Lilliput. Depois de ganhar a confiança dos lilliputianos, que o viam como um gigante ameaçador, Gulliver interfere na guerra contra Blefuscu, mas por divergência da guerra entre os dois países, Gulliver precisa fugir em um barco e acaba chegando à ilha de Brobdingnag, a terra dos gigantes. Lá, ele é encontrado por uma menina, filha do rei, e acaba reencontrando Elizabeth que chegara ali depois do naufrágio do navio. O rei casa os dois, mas, depois de curar a rainha de uma dor de estômago e ser acusado de bruxaria, o rei condena Gulliver à morte. Uma execução seria em uma luta contra o crocodilo preferido do rei, porém, Gulliver mata o animal. Há um trailer de 3min11 no YouTube que pode ser vista brevemente essa cena em 2min32. Você pode assistir, na versão em inglês, neste link https://www.youtube.com/watch?v=gAK_u5bVxvs&t=38s. Seguindo com a resenha, a filha do rei salva os dois, colocando-os em um cesto e os largando ao mar. Gulliver e Elizabeth acabam acordando numa praia e descobrem que estão perto da casa deles, deixando os dois na dúvida se tudo não passou de um sonho.

5. Gulliver’s Travels Beyond the Moon (Viagens de Gulliver além da Lua), 1965.

A história fala de um garoto sem teto que, ao ser expulso de um cinema enquanto assistia ao filme As viagens de Gulliver, quase é atropelado por um caminhão, bate numa parede e fica desacordado. Ao despertar ele encontra um cão falante e um soldado de brinquedo movido por mecanismo de corda que foi descartado em uma lata de lixo.

Os três acabam se envolvendo em encrencas com a polícia em um parque de diversões, escapam em um rojão e caem numa floresta. Lá encontram a casa do professor Gulliver, um cientista idoso que viaja pelo espaço sideral e construiu um foguete. Ele tem seu assistente Crow, um corvo. Os cinco viajam pela Via Láctea até o Planeta da Esperança Azul que sofre o domínio da rainha do Planeta Púrpura e seu grupo de robôs malignos. Os cinco viajantes ajudam o Planeta Azul a vencer o exército do Planeta Púrpura. O filme faz uma transição e mostra o menino acordando na rua, próximo de onde havia caído desacordado. Ele encontra o cão que já não fala. Levanta-se e olha na lata do lixo e encontra o soldado de brinquedo que também agora já não fala. O garoto pega o boneco e sai pela rua seguido pelo cão em busca de outra aventura. Por esse breve resumo o que se pode dizer é que o argumento do romance de Swift serviu para essa adaptação. Para ficar mais próximo do romance, o professor que o garoto encontro tem o nome do personagem do romance e tem o gosto pelas viagens, e nesse caso, o de viajar pelo espaço. O filme, todo em japonês e sem legendas, pode ser assistido no YouTube acessando o  link https://www.youtube.com/watch?v=ItUojuPbaiI.

6. The Adventures of Gulliver (As aventuras de Gulliver), 1968.

Em setembro de 1968, a TV brasileira exibe  uma série em desenho animado com 17 episódios. O roteiro, no entanto, difere bastante do romance de Swift.

Ao sair em busca de um tesouro, o pai do jovem Gary Gulliver é atacado por Leeck, comandante do navio em que estão viajando. Durante a briga, ocorre um forte temporal, o navio é atingido por um raio, bate em recifes e naufraga. Antes de cair ao mar, o pai de Gulliver lhe dá o mapa do tesouro. O jovem chega até a praia de uma ilha junto com seu cão, Tagg, mas ambos ficam desacordados até serem encontrados por pessoas com apenas alguns centímetros de altura: são os liliputianos. Mesmo sendo amarrados, Gulliver e Tagg acabam se soltando e se tornando amigos e se dedicando a procurar o pai de Gulliver. No entanto, Leeck também sobreviveu ao naufrágio e vai em busca de Gulliver, pois acredita que ele vai encontrar o tesouro.

Nessas aventuras, outros personagens se destacam, como o sábio Rei Pomp, comandante dos liliputianos; a garota Flitácia, filha do Rei Pomp que é completamente apaixonada por Gulliver; e mais Egger, Bunko e Soturno que acompanham Gulliver nas suas aventuras. A série teve apenas uma temporada, mas foi apresentada em diversos canais da TV brasileira até quase o final da década de 1970 com grande sucesso entre o público infantil. Um dos episódios (Sono negro/Dark sleep) pode ser assistido neste link https://www.youtube.com/watch?v=x86to_3YiyU.

7. Gulliver’s Travels (Viagens de Gulliver), 1977.

Produção britânico-belga. Diferente das versões anteriores, essa misturou atores reais e animação, ou seja, o personagem Gulliver foi interpretado pelo ator Richard Harris e os outros personagens foram todos em desenho animado.

A abertura mostra a cidade e o ano em que inicia a história: Bristol, 1699, sendo a mesma do livro. A seguir Gulliver caminha por um mercado no cais do porto da cidade. Todos os personagens são interpretados por pessoas. Gulliver chega à casa de sua noiva, onde estão os pais de ambos, e a anunciada intenção de ir ao mar como cirurgião de um navio. Na sequência, Gulliver se despede da moça e dos pais e vai para o porto onde está o navio. A restante do filme mostra o naufrágio e as aventuras de Gulliver em Lilliput e Blefuscu, com os pequenos sendo criados pela animação. O filme termina com Gulliver partindo em um barco e, em determinado momento de sua viagem de retorno, seu barco é erguido por um dos gigantes habitantes de Brobdingnag, mas não há mais nada sobre suas aventuras lá ou nas outras terras mencionadas no romance. O filme completo, em inglês, você assiste no link https://www.youtube.com/watch?v=nzdon9kK5-k&t=799s.

8. Gulliver in Lilliput (Gulliver em Lilliput), 1982.

Série em quatro partes produzida pela BBC para a TV, dirigido por Barry Letts. A história começa com Gulliver sendo abandonado na ilha de Lilliput e encontrando uma sociedade de pessoas minúsculas que vive em constantes brigas por coisas e preocupações cotidianas mesquinhas. Para sobreviver, Gulliver deve participar de suas tolas intrigas judiciais e rixas fúteis. Sua altura elevada o torna um herói em uma batalha com Blefuscu, vizinhos de Lilliput igualmente pequenos e mesquinhos. Porém, quando Gulliver ofende a Rainha, ele deve fugir para salvar sua vida.

9. Los viajes de Gulliver (As viagens de Gulliver), 1983.

O filme de animação é espanhol e foi dirigido por Cruz Delgado. O roteiro do filme foi baseado na segunda parte, a viagem que levou Gulliver a Brobdingnag, a terra dos gigantes.

Gulliver é representado como um garoto que se torna no único sobrevivente de um navio que enfrentou forte tempestade. Em muitos aspectos, a adaptação seguiu o mesmo caminho do livro. Gulliver foi encontrado por um fazendeiro, que tinha uma filha. Depois ele vendido aos reis e a filha do fazendeiro passou a cuidar de Gulliver. O anão que divertia a corte passou a ficar enciumado com o sucesso de Gulliver. A relação que passou a acontecer entre a menina e Gulliver foi diferente do livro, pois no original, ele seria um adulto, ao contrário dessa adaptação que, ao que parece, os dois teriam uma mesma idade. Também diferente foi a peripécia do macaco que está no livro. No filme, o anão solta um gorila do zoológico que pega Gulliver e o leva até o alto de um prédio. Finalmente, a fuga de Gulliver teve uma liberdade criativa e diferente do livro, mas que em nada compromete. Os aspectos de reflexão da sociedade entre Gulliver e as pessoas da corte de Brobdingnag, presentes no livro, no filme não existe. A série se constitui, portanto, em mais um filme de entretenimento.

O filme, com dublagem em espanhol, pode ser assistido no YouTube pelo link https://www.youtube.com/watch?v=AW7uutq6fMA.

10. Saban’s Gulliver’s Travels (Viagens de Gulliver de Saban), de 1992.

Uma série de animação com 26 episódios. Nessa adaptação, Gulliver faz as suas viagens acompanhado por seu assistente, um garoto, um casal de lilliputianos e sua filha adolescente. Em um dos episódios, o grupo enfrenta uma tempestade tão forte que ergue o navio e o leva até a ilha flutuante de Laputa.

O primeiro episódio (Saban’s Gulliver’s Travels – The Battle of the Giants 1 / Viagens de Gulliver de Saban – A batalha dos gigantes 1) está disponível no YouTube e pode ser assistido, com dublagem em inglês, aecssando o link https://www.youtube.com/watch?v=W7ue9m-WMXY.

11. Gulliver’s Travels (As viagens de Gulliver), 1996.

Apesar do título ser igual à adaptação de 1939 e 1977, essa minissérie é considerada como a melhor e mais fiel das adaptações e a única a cobrir o livro inteiro. A produção é britânica/americana especialmente para a TV, produzida por Jim Henson Productions e Hallmark Entertainment.

Nessa versão, o Dr. Gulliver voltou para sua mulher e filhos após uma longa ausência. A ação alterna entre lembranças de suas viagens e o presente, onde ele está contando a história de suas viagens e foi entregue a um manicômio (o quadro de flashbacks e o encarceramento no manicômio não estão no romance). Enquanto a minissérie segue de alguma forma fiel ao romance, o final foi alterado para ter uma conclusão mais otimista. No livro, Gulliver está tão impressionado com o país utópico dos Houyhnhnms e, quando volta à Inglaterra, acaba vivendo entre os cavalos no celeiro, e não com a família. Na minissérie, ele se recupera dessa obsessão e volta para a esposa e o filho. O primeiro capítulo, em inglês, pode ser assistido nesse link https://www.youtube.com/watch?v=7keAFXcVMv8&t=530s.

12. Gulliver’s Travel (Viagens de Gulliver), de 2005.

Produção indiana que centra as ações em Lilliput, onde Gulliver tenta resolver o conflito entre lilliputianos e os habitantes de Blefuscu. A história apresenta um mago que tenta dominar a ilha.

No final, ele invoca um monstro para lugar contra Gulliver, mas esse vence. Gulliver faz com que os dois reis estabeleçam a paz e o mago é perseguido por uma multidão furiosa. Finalmente, Gulliver parte em um navio de volta para casa. Como contribuição maior, essa adaptação trouxe elementos de cultura indiana, tanto no visual, nas vestimentas quanto nas músicas. O filme pode ser assistido na íntegra, com dublagem em inglês, no YouTube, clicando no link https://www.youtube.com/watch?v=Y3RAnkuXTDw.

13. As Viagens de Gulliver (2010).

Em 2010, uma adaptação norte-americana levou aos cinemas As Viagens de Gulliver. Foi dirigido por Rob Letterman e o ator Jack Black como o personagem Gulliver. A história, no entanto, se passa nos dias atuais. Gulliver é um entregador de correspondências de um jornal em Nova Iorque.

Certo dia, ele recebe uma oferta para escrever um texto sobre suas viagens. A editora do caderno de viagens do jornal em que Gulliver trabalha, e ele ama, o envia para realizar uma matéria no Triângulo das Bermudas, onde ficará por três semanas. Ao chegar lá, seu barco é avariado por uma forte tempestade, que o leva à cidade de Lilliput, onde as pessoas são bem pequenas. O roteiro apresenta o personagem Gulliver como um sujeito sem autoconfiança e estima que ama uma mulher inalcançável e de uma hora para outra vira protetor de uma nação que o adora e o estima como rei.

O filme busca dar um tom de comédia, principalmente quando, depois que Gulliver passa a contar a sua vida aos liliputianos, ele faz referências a vários filmes de Hollywood e algumas piadas e gracejos. Os especialistas criticaram os efeitos especiais para mostrar a diferença de tamanho entre Gulliver e os habitantes de Lilliput. A trilha musical, porém, recebeu elogios por terem músicas de bandas de rock, como a Kiss. Para assistir a uma das cenas do filme, a que Gulliver enfrenta os navios dos inimigos dos liliputianos acesse esse link https://www.youtube.com/watch?v=PtlgzBhOYZA.

OUTRAS ADAPTAÇÕES

Há outras versões principalmente em desenho animado. Todas elas dão destaque apenas para a primeira viagem que é aventura na ilha de Lilliput e Blefescu. Uma dessas versões é brasileira e está disponível no YouTube, no canal Os amiguinhos e pode ser assistido neste link https://www.youtube.com/watch?v=PAGipxN5LV4.

Maurício de Sousa, conhecido por ser o criador da Turma da Mônica , fez uma adaptação do romance de Swift na coleção Clássicos Para Sempre , em 2015. O personagem Cebolinha vive Gulliver, um menino órfão que sonha em se tornar o capitão de um navio. Um dia, ele acaba vivendo uma enorme aventura.

Uma das páginas de “Gulliver”, uma adaptação de Maurício de Sousa do clássico de Swift.

Depois de uma tempestade, ele naufraga e vai parar na ilha de Lilliput. Depois de ser preso pelos habitantes ele decide ajudar os pequenos que são atacados por piratas. Gulliver derrota os piratas quando eles atacam Lilliput e os pequenos habitantes constroem um navio como forma de agradecimento. Assim, o pequeno Gulliver se torna o capitão de seu próprio navio.

CONCLUSÃO

A transmutação refere-se ao ato e a consequência de transformar uma coisa em algo diferente. Pela nossa vontade, podemos realizar coisas que transformem algo em uma coisa muito diferente. Podemos alterar e transformar uma estrutura que compõe algo em vários tipos de existência de forma parcial ou total e até determinar o tempo de duração dos efeitos dessa mudança. Partindo dessa ideia, vamos observar que mudanças (ou transmutações) ocorreram na obra de Jonathan Swift.

No romance de 1726, Gulliver é o próprio narrador da história. Ele se constitui na pessoa narrativa que nos conta as suas aventuras, ou seja, é o personagem principal daquilo que ele mesmo afirma ter vivido. Em forma de cartas dirigidas ao seu primo Sympson, Gulliver fala de sua decisão de embarcar em um navio para servir como médico e viajar pelo mundo. Depois de viver muitas aventuras nessa primeira viagem, e ter retornado a sua terra natal, a Inglaterra, outras três aconteceram. Em cada aventura, o jovem médico conheceu povos diferentes com realidades sociais totalmente diferentes como quais são minuciosamente.

O romance é extenso e a linguagem da época pode parecer-nos um pouco cansativa atualmente, até mesmo pelas descrições muito específicas dos aspectos físicos, geográficos e sociais dos lugares por onde Gulliver passou. Alguns analistas da literatura afirmam que o romance se constitui em uma crítica social bastante pertinente ao sistema político da Inglaterra do tempo em que Swift vivia.

Logo na sua primeira viagem, ao encontrar pessoas tão pequenas em Lilliput, Gulliver se depara com um conflito desse povo: a forma de como deve ser quebrado um ovo, ou por baixo ou por cima. Um olho mais apurado pode dizer que, na política, que move toda uma sociedade, as picuinhas podem ser mais importantes do que os verdadeiros problemas dessa sociedade.

Na sua segunda viagem, Gulliver é feito prisioneiro em uma terra de gigantes, chamada de Brobdingnag, e serve como atração para os seus captores ganharem dinheiro. Em certo momento, a rainha o compra e o rei se interessa em saber como é a vida na terra de Gulliver. Ele fala sobre a constituição do país ao que o rei faz duras críticas.

Em todas as adaptações do romance de Jonathan Swift, observamos que as duas primeiras viagens foram as mais recorrentes. No entanto, a primeira foi a mais destacada e a mais adaptada, inclusive em sua história original. No filme de 1903, por exemplo, foram representadas as duas primeiras viagens, até pelo fato de haver limitações técnicas na época em que o filme foi produzido. Por ser um filme mudo, não havia diálogos e todos os conflitos narrados no livro não foram desencadeados. Essa adaptação, segundo podemos entender, serviu mais para apresentar em forma de entretenimento a linguagem do cinema que estava em seus primeiros passos naquela época.

O filme russo, por sua vez, tem relação com o livro apenas pelo fato de o garoto sonhar que é o personagem Gulliver que naufragou e se deparou em uma terra onde vivem pessoas muito pequenas que, nesse caso, são representadas por fantoches. Podemos dizer que, pelo fato de o romance de Swift ser visto como uma crítica social de sua época, os produtores do filme viram no texto original uma fonte para tratar de assuntos sociais pertinentes à época vigente de 1934. O filme busca mostrar a desigualdade social causada pela exploração capitalista. A representação dos bonecos e da cidade em que eles viviam, era uma representação de cidades da época em que o filme foi produzido, distanciando-se do tempo de 1726, quando o livro de Swift foi publicado. Os personagens são representados de forma bastante “misturada”: os capitalistas dirigem automóveis da época e usam antigas perucas inglesas; os soldados usam máscaras de gás, armaduras e o armamento tem até mesmo metralhadoras; alguns policiais se vestem como mosqueteiros. O texto de Swift serviu, portanto, como pano de fundo para ser feita uma propaganda ideológica dentro de um período histórico bem definido.

No filme de animação de 1939, foi adaptada apenas a primeira viagem e ainda assim a história traz grandes diferenças em comparação com o romance. Na abertura do filme, é mostrada uma carta que diz: “Eu, Lemuel Gulliver, ofereço a vocês uma história fiel da minha mais interessante viagem pelos mares do sul”. A história do naufrágio é a mesma até ele desmaiar na praia. Depois vai se desenvolvendo no castelo do rei de Lilliput, que recebe uma visita do rei de Blefuscu para comemorarem a promessa de casamento entre seus dois filhos. O conflito se estabelece quando os dois reis se desentendem por causa da escolha da música que deve ser tocada no casamento: o hino de Lilliput ou de Blefuscu. O último sente-se ofendido e declara guerra a Lilliput. Gulliver é apenas o elemento que ajuda os dois reinos a se entenderem em nome do amor dos dois jovens sóbrios, que acabam se casando. O filme termina com a partida de Gulliver em um barco. Ao longo do filme muitas canções, principalmente cantadas pelos príncipes, deu um formato de musical e conto de fadas que termina com um casamento. O mais próximo do romance foi o fato de o personagem ser o mesmo, os dois reinos de pequenas pessoas e os nomes desses reinos. Os personagens de animação foram bastante caricatos, muito próprios em desenho animado, ao contrário de Gulliver que foi mais “realista”. Isso também se percebe nas vozes das dublagens dos personagens. A adaptação serviu, portanto, basicamente como entretenimento para as crianças.

As adaptações de 1960 e 1977 tiveram adaptações tão profundas que se constituem em obras próprias, pouco restando da história original de Swift. Na primeira, mostra a noiva de Gulliver. No entanto, diferente do livro, ela embarca no mesmo navio para seguir viagem. O restante do roteiro tem pouco do livro apesar de as aventuras se passarem nas terras de Lilliput e dos gigantes. O final também é totalmente diferente do livro dando uma ideia de que ambos tiveram uma forma de sonho ou alucinação e sonharam toda a viagem sem que houvesse uma explicação plausível para isso. Ficou o diálogo final dos dois, mostrando que, apesar de ter sido tudo um sonho, eles tiraram lições com a história que viveram. Os efeitos especiais, no entanto, foram bem mais interessantes do que versões anteriores. O que desperta a atenção é o fato de o título ser Os Três Mundos de Gulliver, mas as aventuras acontecem em dois lugares que fazem parte do livro de 1726: Lilliput e a terra dos gigantes. O terceiro certamente se refere ao próprio mundo de Gulliver e sua noiva, onde eles fazem as reflexões de suas viagens que, eles até conjecturam, ter sido tudo um sonho. Dessa forma, o filme busca algo que o livro apresenta, ou seja, reflexões sobre aspectos sociais e humanos. Esse fato pode ser suficiente para se dizer que o filme tenta não ser exclusivamente algo de mero entretenimento.

Na adaptação de 1977, dirigido por Peter Hunt e com roteiro de Don Black, a cidade de onde Gulliver parte é Bristol e o ano é o mesmo, em 1699. Também aparece a sua esposa de quem ele se despede antes de partir no navio. A tempestade e o naufrágio na ilha de Lilliput, os conflitos entre esse país e Blefuscu se mantiveram o mais próximo possível do livro. A solução para encaixar Gulliver como um homem de tamanho normal entre pessoas tão minúsculas foi a animação em desenho. Trata-se de uma linguagem bastante complicada para fazer o espectador aceitar, pois o filme inicia com pessoas normais e só depois, na ilha de Lilliput, a história se desenvolve com os personagens em desenho animado. Em animação, os personagens possuem expressões e gestos muito diferentes do que se fossem feitos por atores, como foi o caso de Richard Harris, o ator que interpretou Gulliver. O grande problema dessa adaptação diz respeito a essa mistura de linguagens, ou seja, a fílmica com pessoas reais e com desenho animado. Não há qualquer coisa que prepare o espectador de que isso fará parte da história do filme. Simplesmente surge do nada. Enquanto que na história de Swift, Gulliver é o narrador e diz que tudo o que ele relata é real, esse filme de 1977 dá a impressão de que tudo é imaginação do próprio Gulliver provocada por essa mistura de atores reais e desenho animado.

Na versão japonesa de 1965, o filme tem dois aspectos importantes: a questão do garoto sem teto e sua imaginação, levando o  espectador a perceber a ludicidade infantil e a fuga da dificuldade de sua situação social através da imaginação. A outra é sobre o planeta dominado por robôs que nada mais são do que as invenções dos próprios habitantes do Planeta Azul que foram usados pela rainha do Planeta Púrpura. Aqui há um alerta para a sociedade da época: a tecnologia pode ser bem-vinda, mas deve ser usada com cuidado para que não domine o próprio criador. Nos dias atuais, parece quase uma confirmação daquele alerta.

Na série de 1982, o tamanho dos liliputianos se constitui em uma metáfora relacionada a essas picuinhas e ao caráter dos habitantes dos dois povos em litígio constante. De certa forma, o mesmo acontece no livro, porém as referências satíricas e humorísticas dessa série estão contextualizadas ao período mais recente, fato que torna a abordagem muito mais relevante.

Diferente de todas as outras adaptações, a série de 1996 foi a mais próxima de tudo o que se fez até então. Pelo fato de não ser um filme limitado a duas horas de duração, e pela complexidade de todo o romance e suas quatro viagens, a série buscou abordar ao máximo toda a história de Jonathan Swift, diluindo em seus capítulos como aventuras vividas por Gulliver. Para resolver esse problema, as imagens funcionam como o olhar do narrador, ou seja, ao contrário de contar, ele mostra com o seu “olho” que é a lente da câmera. Nessa adaptação, Gulliver volta para sua família depois da última viagem. Todas as histórias vividas se alternam entre “flashbacks” e o tempo presente. Essa forma de narrativa não está no livro, que é contada na forma de uma carta escrita que Gulliver escreve ao seu primo. Mesmo mantendo o mais fiel possível e o livro, o final da série foi diferente. Enquanto no livro Gulliver segue sua vida entre os seus cavalos em um celeiro e distante da sua família, na série ele se recupera dessa obsessão e volta para sua esposa e filho. Esse final, no entanto, não prejudica a adaptação. Pelo contrário. Swift fez a sua crítica social de sua época e, provavelmente, viu mais valor e racionalidade em animais do que a própria sociedade que vivia envolta em seus vícios e problemas causados por ela mesma. Além disso, os produtores da série buscaram dar a visão deles do mundo atual (1996) da mesma forma que Swift viu a sociedade de seu tempo.

Quanto ao filme de 2010 e o desenho animado da década de 1960, só tem em comum a aventura em um reino habitado por pessoas muito pequenas. Porém, podemos identificar adaptações que servem de um motivo ou tema para desenvolver as suas histórias. No caso da série em animação para a TV, Gulliver é um jovem solteiro que tem por objetivo encontrar seu pai em uma ilha em que naufragou. Entre os habitantes de Lilliput, ele tem amigos que o auxiliam na tarefa, mas enfrentam o comandante Leeck por causa do mapa de um tesouro. O tipo de personagem (um jovem solteiro), os valores de Gulliver (acompanhando o seu pai em uma viagem) são totalmente diferentes das outras histórias (um médico cirurgião que deixa esposa e filhos em casa e parte em aventuras pelo mar). O próprio nome é diferente: Gary Gulliver ao nome original do livro, Lemuel Gulliver. Da mesma forma, o Gulliver literário não tem um cachorro que o acompanha em qualquer uma das suas viagens. Nesse caso, o cão pode ser interpretado como o grande amigo de Gulliver para ajuda-lo nas suas aventuras e nos confrontos contra o comandante Leeck, mesmo que os liliputianos sejam seus grandes amigos.

Quanto ao filme de 2010, o nome do personagem é o mesmo do livro (Lemuel Gulliver). Porém, a história se passa no tempo presente, ele é solteiro e apaixonado pela redatora do jornal em que ele trabalha. A chegada à Lilliput e a sua permanência tem peripécias muito pouco a ver com o livro. Uma dessas é a cena em que Gulliver apaga um incêndio no castelo, salvando o rei de Lilliput, ao urinar sobre o fogo e ganha a confiança dos lilliputianos. No livro, Gulliver faz o mesmo, mas salva a rainha e ainda é punido. Além do mais, o filho do rei de Blefuscu enfrenta Gulliver vestindo uma armadura gigantesca que funciona como um robô. Inclusive, mais se parece com uma versão de Homem de Ferro, o super-herói das histórias em quadrinhos da Marvel. A partir da metade da história, Gulliver encontra a editora do jornal e volta, no final do filme, com ela para casa. A peripécia que envolve esse encontro não traz muita lógica no roteiro, mas certamente serviu para uma reviravolta no personagem Gulliver. No caso, o de mostrar uma mudança total no personagem, de um homem fracassado afetiva e profissionalmente a um repórter de sucesso no jornal em que trabalha que mantém um relacionamento com a redatora. O filme traz uma linguagem que mistura o antigo com coisas contemporâneas, como é o caso da trilha musical que traz rock e heavy metal. Busca também agregar muito humor, até pelo fato da escolha do ator que interpreta Gulliver, pois ele atuou em muitos filmes com a temática humorística, algo muito diferente do que pretendia Swift em seu romance.

Há muitas obras contendo citações, alusões e referências explícitas e implícitas do romance do escritor irlandês em formatos para cinema e TV. Para não nos alongarmos muito, deixaremos essas outras para um próximo artigo.

No entanto, de todas essas que apresentamos, podemos observar como um romance, que foi um grande sucesso em sua época, pode ter inspirado outras obras utilizando linguagens diferentes. O romance de Swift mantém-se como um clássico que está na memória das pessoas como um conto de fadas. Certamente, nem todas as pessoas no mundo conhecem uma obra do escritor irlandês, mas nas bibliotecas escolares ainda podemos encontrar muitas adaptações literárias ao alcance dos jovens. A partir de programas de incentivo à leitura, isso faz com que se perpetue a história no inconsciente das pessoas e seja, vistas nessas adaptações para TV e cinema, outra forma de comparar e debater a obra na sua escrita original contextualizada em outro tempo.