Viagens de Gulliver: uma transmutação de linguagens

Paulo Bocca Nunes 
Professor de Língua Portuguesa. 
Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. 
Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira; 
Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira.

 

INTRODUÇÃO

A literatura é a linguagem escrita de forma poética. Não que toda literatura seja poesia, mas pelo fato de nos apresentar um mundo imagético possível em que o narrador da história nos leva a viajar por cenários que ele descreve sob o seu ponto de vista único. Os personagens, que desenvolvem as ações através do olhar clínico do mesmo narrador, muitas vezes nos cativam de modo a nunca mais esquecê-los. Mais que isso: sobrevivem ao próprio tempo e vai por gerações e gerações a encantar os leitores. Mesmo que os tempos mudem, as pessoas mudem, o contexto mude, ainda assim o texto, sendo exatamente o mesmo, permanece cativante e cheio de novas ideias a cada leitura. Sobre isso, o escritor italiano Ítalo Calvino nos afirma que a literatura nunca termina de nos dizer tudo. Ou seja, mesmo que façamos uma nova leitura, mas em épocas diferentes de nossas vidas, a literatura ainda vai nos dizer algo que não havíamos nos dado conta antes.

A História da Literatura nos apresenta períodos literários em que figuraram as obras mais expressivas, tornando-se muitas delas em clássicos mundiais. Uma das mais lembradas e conhecidas obras é As viagens de Gulliver, do irlandês Jonathan Swift. Publicado em 1726, a obra teve várias reimpressões e, séculos mais tarde, adaptações para outras linguagens que não a literária, ou a escrita, como é o caso do teatro, que se constitui em uma linguagem muito importante e frequente nas adaptações literárias. Ao longo de quase trezentos anos, a obra permanece inquietante e provocadora de debates, mesmo que hoje ela seja vista como uma obra voltada para o público infantojuvenil.

A partir das primeiras décadas do século XX, com a consolidação do rádio, da TV e do cinema, surgem as adaptações de romances para essas mídias. Se antes as obras circulavam entre os leitores, um de cada vez, as produções das adaptações passariam a alcançar um número muito maior de pessoas de todas as classes sociais. À medida que circulavam, foram se integrando à chamada cultura pop. Com a prática constante de adaptações de romances, um produto muito forte nas instituições de ensino, foram surgindo questionamentos e debates sobre a possibilidade de incentivo à leitura do texto tendo a mídia radiofônica, televisiva ou cinematográfica como apoio.

Debates à parte, não se pode esperar que a linguagem literária seja plenamente reproduzida em outras mídias. O narrador do romance vai nos levando pela história, vai nos contando, nos descrevendo cenários e ações. Será a nossa imaginação que vai construir as imagens que o narrador descreve e para cada leitor nunca será exatamente igual. Sempre haverá algum detalhe diferente, de um leitor para outro. Enquanto isso, a TV e o cinema nos mostram o que imaginamos através da leituraEnquanto isso, a TV e o cinema nos mostram. E nem sempre nos mostrará aquilo que imaginamos pela descrição do narrador. Não raras as vezes, ficamos frustrados quando vemos na tela do cinema ou da TV aquele personagem que imaginamos na leitura. Por outro lado, houve surpresas que nos levaram para muito além daquilo que lemos.

A adaptação de uma obra literária em uma linguagem diferente se constitui em uma experiência totalmente diferente, a de recontar uma história e não contar a própria história contada por um narrador literário. O adaptador se apresenta como um autor que se valerá de um argumento que será encontrado no romance em que se baseia a sua adaptação.

Nesse processo, há um momento curioso e instigante para quem faz a adaptação do texto literário: perceber os elementos presentes na obra que a tornam possível de ser adaptada para outra linguagem. Toda adaptação, no entanto, vai levar em conta o seu tempo. O texto original teve o seu tempo, mas a adaptação colocará os olhos no seu próprio tempo, observará a movimentação do mundo atual para ter o direito de sua própria existência. Como qualquer processo criativo, isso pode dar certo ou não. O público poderá gostar ou não. Isso não significa que a obra original sofrerá algum arranhão, pois seja qual for a adaptação, essa sempre será comparada com o texto original e não o contrário.

Veremos a seguir algumas adaptações de As viagens de Gulliver em linguagens diferentes da escrita e suas adaptações para o público infantojuvenil, por exemplo. Vamos focar nas mídias de TV e cinema por serem muito prestigiadas e por serem de grande circulação entre as massas. Colocaremos um olhar sobre como elas puderam ser próximas, ou não, do texto original e quais as influências na cultura pop da atualidade.

SOBRE A OBRA

Depois de estudar fundamentos de medicina, matemática e artes de navegação, Gulliver casa-se com Mary Burton, filha de um negociante de meias, com quem teve dois filhos. Depois de algum tempo, ele parte da Inglaterra em um navio com destino os mares do sul na função de médico cirurgião. Em meio a viagem, o navio naufraga após forte tempestade. Único sobrevivente, Gulliver é carregado pelas ondas até a praia de uma ilha desconhecida. Ao acordar, ele percebe que foi amarrado dos pés à cabeça por homens minúsculos que o tomam por um gigante inimigo. Essa é uma breve apresentação da primeira entre as quatro viagens de Gulliver e estão narradas em As viagens de Gulliver, do escritor irlandês Jonathan Swift.

Primeira edição de “As viagens de Gulliver”, de 1726.

O livro foi publicado inicialmente em 1726 com o título Gulliver’s travels (Viagens de Gulliver), mas foi alterado em 1735 para  Travels into Several Remote Nations of the World. In Four Parts. By Lemuel Gulliver, First a Surgeon, and then a Captain of Several Ships (Viagens para várias nações remotas do mundo. Em quatro partes. Por Lemuel Gulliver, primeiro cirurgião e depois capitão de vários navios). Trata-se de um romance satírico em que o autor narra as viagens do personagem principal por várias nações e descreve o funcionamento de suas sociedades. Alguns analistas de literatura identificam o romance como uma crítica social de Swift para a situação da Inglaterra de sua época. Hoje, depois de várias reimpressões do romance e das diversas adaptações para TV e cinema, é considerado como um dos clássicos da literatura universal.

A história é narrada em primeira pessoa, pelo próprio Lemuel Gulliver na forma de carta escrita ao seu primo. A obra é dividida em quatro partes, cada uma em um território diferente e marcado por peculiaridades dos povos e de suas sociedades. A primeira parte é a chegada à ilha de Liliput, habitada por pessoas minúsculas. Mesmo sendo considerado inimigo inicialmente, Gulliver conquista a confiança dos lilliputianos e os ajuda na guerra contra os inimigos do país vizinho chamado Blefescu. O motivo da guerra: em Liliput quebram-se os ovos pela parte mais fina da casca, enquanto em Blefescu os ovos são quebrados pela parte da mais grossa. Após evitar um ataque dos navios de Blefescu a Liliput, e negar-se a destruir os navios inimigos, Gulliver obriga os dois países a assinarem um tratado de paz. Certo dia, ele encontra um barco abandonado na praia, o coloca no mar e rema até ser encontrado por um navio que o leva de volta para a Inglaterra depois de três anos de ausência.

Depois de permanecer dois meses sua cidade natal com a mulher e os filhos, Gulliver parte para a sua segunda viagem após permanecer mais dois meses com a família. Durante a viagem e após outra tempestade e ser atacado por piratas, ele é abandonado pela tripulação em um barco. Assim ele chega em uma ilha chamada Brobdingnagonde onde vivem gigantes com mais de vinte metros de altura. Ao ser capturado, Gulliver se torna uma atração turística. Após passar por muitas dificuldades, Gulliver passa a viver em uma casa de bonecas de madeira, até que uma águia gigante a rouba e a deixa cair no mar. Ele é resgatado por um navio que o leva de volta à Inglaterra. depois de quatro anos, Gulliver revê a sua família.

Em sua terceira viagem, Gulliver é feito prisioneiro por piratas e abandonado em uma ilha rochosa perto da Índia. Porém, ele é resgatado pela ilha voadora de Laputa, um reino que se dedica às artes musicais, matemáticas, astronômicas e a ciência em modo geral, só que são incapazes de usá-las para fins práticos. O costume dos laputianos é de jogar pedras em cidades rebeldes no solo. Depois de muitas peripécias, Gulliver chega ao Japão, mas volta para casa depois de cinco anos de ausência.

Na quarta e última viagem, Gulliver volta ao mar como capitão de um navio mercante. Em meio à viagem foi traído pelos seus homens que o abandonam em um bote e assim ele chega ao país dos Houyhnhms, governado por cavalos que agiam como criaturas racionais, enquanto os humanos, chamados de yahoos, eram seres bestiais, com total falta de inteligência e racionalidade. Gulliver admira os cavalos racionais e passa a imitar o estilo de vida deles. Porém, os Houyhnhms decidem expulsá-lo por ser muito parecido com um Yahoo. Gulliver constrói um barco e retorna à Inglaterra depois de outros cinco anos.

Apesar de As Viagens de Gulliver ser considerado um clássico da literatura infantojuvenil, o romance não foi escrito para os jovens da época de Swift. Trata-se de uma sátira sobre o ser humano e as instituições sociais da Inglaterra do tempo do escritor irlandês. Em forma de narrativa de viagens, Swift buscou expressar a sua indignação em relação à corrupção, aos vícios, à maldade humana e os abusos de poder dos governantes.

ADAPTAÇÕES DA OBRA

A obra de Swift inspirou adaptações tanto no teatro quanto na música. No teatro, as adaptações ficam centradas nas aventuras em Liliput e na Terra dos Gigantes com o uso de atores reais e de bonecos. Também muitos compositores musicais contribuíram com a sua arte. A primeira foi em 1728, dois anos após o lançamento do romance, uma suíte para violinos composta pelo Georg Philipp Telemann. Em 2008, o músico e produtor italiano, Andrea Ascolini, gravou uma versão moderna. Outras canções foram gravadas pelas bandas No More Kings e The Yellow Moon Band e pelo cantor espanhol Miguel Bosé. 

Além da música e do teatro, outras adaptações foram feitas em mídias de grande circulação. A primeira que se tem conhecimento é um filme mudo de 1902 na França e 1903, nos EUA. O título, em francês, é Voyage de Gulliver à Lilliput et chez les géants (Viagem de Gulliver à Liliput e à casa dos gigantes). A direção foi de Georges Méliès. A duração é de pouco mais de 4 minutos e pode ser assistido no link abaixo: https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=DQkEyRB08Ic. No filme, o personagem Gulliver é representado como um homem de idade avançada na ilha de Liliput. Não há qualquer referência se ele tem família. 

A segunda adaptação é As Viagens de Gulliver, um filme de animação de 1939, dirigido por Dave Fleischer e produzido por Max Fleischer para o Fleischer Studios e distribuído pela Paramount Pictures. Em forma de um musical, não se trata de uma adaptação de todo o livro, mas as aventuras de Gulliver na ilha de Liliput e em Blefescu. A história é contada como um conto de fadas bem ao gosto das animações da época. O filme recebeu indicação ao Oscar (prêmio máximo da academia de cinema dos Estados Unidos) por melhor música original. Também nessa adaptação não há referência a Gulliver ter uma família. O filme completo, com dublagem em português pode ser assistido neste link https://www.youtube.com/watch?v=NEN9TU6XRAc&frags=pl%2Cwn.

Outra adaptação foi em forma de drama de rádio das aventuras de Gulliver em Liliput, chamada Gulliver’s Travels (Viagens de Gulliver), em 1999. Foi produzida pela National Public Radio (NPR), uma organização pública de comunicação social, sem fins lucrativos e financiada por iniciativa pública e privada e, especialmente, por doações dos seus ouvintes. A sede fica em Washington, nos Estados Unidos. Na linguagem radiofônica, em forma de drama apresentado em vários capítulos, a história tem um narrador, os personagens e a criação de sons que buscam reproduzir as ambientações dos lugares, ou das próprias ações dos personagens. 

Em 1960, o clássico da literatura teve a sua versão para o cinema com roteiro e direção de Jack Sher e no elenco Kerwin Mathews e Jo Morrow. Em inglês, o filme recebeu o título The three worlds of Gulliver (Os três mundos de Gulliver). No Brasil, foi chamado de As viagens de Gulliver. No enredo, temos o médico Lemuel Gulliver (Kerwin Mathews) como um médico cirurgião muito pobre que busca riquezas como médico de um navio que fará uma viagem ao redor do mundo. A sua noiva, Elizabeth, tenta dissuadi-lo da ideia e os dois acabam brigando. Gulliver embarca no navio e logo depois descobre que sua noiva está a bordo, pois pretende ficar perto dele. Uma tempestade destrói o navio e Gulliver é levado pelo mar até a ilha de Lilliput habitada por pessoas muito pequenas que o veem como um gigante ameaçador. Depois de ganhar a confiança dos lilliputianos, Gulliver interfere na guerra contra Blefuscu, mas por divergência da guerra entre os dois países, Gulliver precisa fugir em um barco e acaba chegando à ilha de Brobdingnag, a terra dos gigantes. Lá, ele é encontrada por uma menina, filha do rei, e acaba reencontrando Elizabeth que chegara ali depois do naufrágio do navio. O rei casa os dois, mas, depois de curar a rainha de uma dor de estômago e ser acusado de bruxaria, o rei condena Gulliver à morte. A execução seria em uma luta contra o crocodilo preferido do rei, porém, Gulliver mata o animal. A filha do rei salva os dois, colocando-os em um cesto e os largando ao mar. Gulliver e Elizabeth acabam acordando numa praia e descobrem que estão perto da casa deles, deixando os dois na dúvida se tudo não passou de um sonho.O trailer do filme, com a cena da luta com o jacaré, pode ser visto neste link https://www.youtube.com/watch?v=gAK_u5bVxvs.

Em setembro de 1968, a TV brasileira exibe As aventuras de Gulliver (The adventures of Gulliver), uma série em desenho animado com 17 episódios. O roteiro é um pouco diferente  do romance de Swift.

Ao sair em busca de um tesouro, o pai do jovem Gary Gulliver é atacado por Leeck, comandante do navio em que estão viajando. Durante a briga, ocorre um forte temporal, o navio é atingido por um raio, bate em recifes e naufraga. Antes de cair ao mar, o pai de Gulliver lhe dá o mapa do tesouro. O jovem chega até a praia de uma ilha junto com seu cão, Tagg, mas ambos ficam desacordados até serem encontrados por pessoas com apenas alguns centímetros de altura: são os liliputianos. Mesmo sendo amarrados, Gulliver e Tagg acabam se soltando e se tornando amigos e se dedicam a procurar o pai de Gulliver. No entanto, Leeck também sobreviveu ao narfrágio e vai em busca de Gulliver, pois acredita que ele vai encontrar o tesouro.

Nessas aventuras, outros personagens se destacam, como o sábio Rei Pomp, comandante dos liliputianos; a garota Flitácia, filha do Rei Pomp que é completamente apaixonada por Gulliver; e mais Egger, Bunko e Soturno que acompanham Gulliver nas suas aventuras.

A série teve apenas uma temporada, mas foi apresentada em diversos canais da TV brasileira até quase o final da década de 1970 com grande sucesso entre o público infantil. Um dos episódios (Sono negro / Dark sleep) pode ser assistido neste link https://www.youtube.com/watch?v=x86to_3YiyU.

Outras duas adaptações para a TV e cinema que, ao que se sabe, não tiveram circulação no Brasil. Todas as duas tiveram o título de Gulliver’s travel (As viagens de Gulliver). A primeira é é um filme britânico-belga de 1977. Diferente das versões anteriores, essa misturou ação ao vivo e animação, ou seja, o personagem Gulliver foi interpretado pelo ator Richard Harris e os outros personagens foram todos em desenho animado.

A abertura mostra a cidade e o ano em que inicia a história: Bristol, 1699, sendo a mesma do livro. A seguir Gulliver caminha por um mercado no cais do porto da cidade. Todos os personagens são interpretados por pessoas. Gulliver chega à casa de sua noiva, onde estão os pais de ambos, e anuncia sua intenção de ir ao mar como cirurgião de um navio. Na sequência, Gulliver se despede da moça e os pais e vai para o porto onde está o navio. O restante do filme mostram o naufrágio e as aventuras de Gulliver em Lilliput e Blefuscu, com os pequenos habitantes criados pela animação. O filme termina com Gulliver partindo em um barco e, em determinado momento de sua viagem de retorno, seu barco é erguido por um dos gigantes habitantes de Brobdingnag, mas não há mais nada sobre suas aventuras lá ou nas outras terras mencionadas no romance. O filme completo, em inglês, pode ser assistido no link https://www.youtube.com/watch?v=nzdon9kK5-k&t=799s.

Gulliver’s Travels, de 1996, é uma minissérie de produção britânica/americana especialmente para a TV, produzido por Jim Henson Productions e Hallmark Entertainment. Essa minissérie é considerada uma das poucas adaptações do romance de Swift que apresenta todas as quatro viagens da história original, com algumas poucas modificações. A minissérie foi ao ar no Reino Unido no Canal 4 e nos Estados Unidos na NBC em fevereiro de 1996. A minissérie é estrelada por Ted Danson e Mary Steenburgen entre outros. A série ganhou cinco prêmios Emmy Awards.

Nessa versão, o Dr. Gulliver voltou para sua mulher e filhos após uma longa ausência. A ação alterna entre lembranças de suas viagens e o presente, onde ele está contando a história de suas viagens e foi entregue a um manicômio (o quadro de flashbacks e o encarceramento no manicômio não estão no romance). Enquanto a minissérie permanece fiel ao romance, o final foi alterado para ter uma conclusão mais otimista. No livro, Gulliver está tão impressionado com o país utópico dos Houyhnhnms que, quando volta à Inglaterra, acaba escolhendo viver sua vida entre os cavalos no celeiro, e não com a família. Na minissérie, ele se recupera dessa obsessão e volta para a esposa e o filho. O primeiro capítulo, em inglês, pode ser assistido nesse link https://www.youtube.com/watch?v=7keAFXcVMv8&t=530s.

Há outras versões principalmente em desenho animado. Todas elas dão destaque apenas para a primeira viagem que é aventura na ilha de Liliput e Blefescu. Uma dessas versões é brasileira e está disponível no YouTube, no canal Os amiguinhos e pode ser assistido neste link https://www.youtube.com/watch?v=PAGipxN5LV4.

Em 2010, uma adaptação norte-americana levou aos cinemas Gulliver’s Travels (As Viagens de Gulliver, no Brasil). Foi dirigido por Rob Letterman e o ator Jack Black como o personagem Gulliver. A história, no entanto, se passa nos dias atuais. Gulliver é um entregador de correspondências de um jornal em Nova Iorque.

Certo dia, ele recebe uma oferta para escrever um texto sobre suas viagens. A editora do caderno de viagens do jornal em que ele trabalha, que Gulliver ama, o envia para realizar uma matéria no Triângulo das Bermudas, onde ficará por três semanas. Ao chegar lá, seu barco é avariado por uma forte tempestade, que o leva à cidade de Lillipute, onde as pessoas são bem pequenas. O roteiro apresenta o personagem Gulliver como um sujeito sem autoconfiança e estima que ama uma mulher inalcançável e de uma hora para outra vira protetor de uma nação que o adora e o estima como rei. 

O filme busca dar um tom de comédia, principalmente quando, depois que Gulliver passa a contar a sua vida aos liliputianos, ele faz referências a vários filmes de Hollywood e fazendo algumas piadas e gracejos. Os especialistas criticaram os efeitos especiais para mostrar a diferença de tamanho entre Gulliver e os habitantes de Lillipute. A trilha musical, porém, recebeu alguns elogios por terem músicas de bandas de rock, como a Kiss. Para assistir a uma das cenas do filme, a que Gulliver enfrenta os navios dos inimigos dos liliputianos acesse esse link https://www.youtube.com/watch?v=PtlgzBhOYZA.

Apesar de receber o título da tão conhecida obra de Swift, o filme não teve uma boa aceitação por parte da crítica especializada e do público. Algumas editoras, porém, aproveitaram o momento para lançarem novas traduções do romance original. 

CONCLUSÃO

A transmutação refere-se ao ato e a consequência de transformar uma coisa em algo diferente. Pela nossa vontade podemos realizar coisas que transformem algo em uma coisa muito diferente. Podemos alterar e transformar a estrutura que compõe algo em vários tipos de existência de forma parcial ou total e até mesmo determinar o tempo de duração dos efeitos dessa mudança. Partindo dessa ideia, vamos observar que mudanças (ou transmutações) ocorreram na obra de Jonathan Swift.

No romance de 1726, Gulliver é o próprio narrador da história. É ele quem nos conta as suas aventuras, ou seja, é o personagem principal daquilo que ele mesmo afirma ter vivido. Em forma de cartas dirigidas ao seu primo Sympson, Gulliver fala de sua decisão de embarcar em um navio para servir como médico e viajar pelo mundo. Depois de viver muitas aventuras nessa primeira viagem, e ter retornado a sua terra natal, a Inglaterra, outras três aconteceram. Em cada aventura, o jovem médico conheceu povos diferentes com realidades sociais totalmente diferentes as quais descreve minuciosamente.

O romance é extenso e a linguagem da época, pode parecer-nos um pouco cansativa atualmente até mesmo pelas descrições muito detalhadas dos aspectos físicos, geográficos e sociais dos lugares por onde Gulliver passou. Alguns analistas da literatura afirmam que o romance se constitui em uma crítica social bastante pertinente ao sistema político da Inglaterra do tempo em que Swift vivia.

Logo na sua primeira viagem, ao encontrar pessoas tão pequenas em Liliput, Gulliver se depara com um conflito desse povo: a forma de como se deveria quebrar um ovo, ou por baixo ou por cima. Um olho mais apurado pode dizer que, na política, que move toda uma sociedade, picuinhas podem ser mais importantes do que os verdadeiros problemas dessa mesma sociedade.

Na sua segunda viagem, Gulliver é feito prisioneiro em uma terra de gigantes, chamada de Brobdingnag, e serve como atração para os seus captores ganharem dinheiro. Em certo momento, a rainha o compra e o rei se interessa em saber como é a vida na terra de Gulliver. Esse fala sobre a constituição do país ao que o rei faz duras críticas.

Em todas as adaptações do romance de Jonathan Swift, observamos que as duas primeiras viagens foram as mais recorrentes. No entanto, a primeira foi a mais destacada e a mais adaptada, inclusive em sua história original. No filme de 1903, por exemplo, somente a primeira viagem é mostrada, até pelo fato de haver limitações técnicas na época em que o filme foi produzido. Por ser um filme mudo, não havia diálogos e todos os conflitos narrados no livro não foram mostrados.

No filme de animação de 1939, foi adaptada apenas a primeira viagem e ainda assim a história traz grandes diferenças em comparação com o romance. Na abertura do filme, é mostrada uma carta que diz: “Eu, Lemuel Gulliver, ofereço a vocês uma história fiel da minha mais interessante viagem pelos mares do sul.”. A história do naufrágio é a mesma até ele desmaiar na praia. A história passa a se desenvolver no castelo do rei de Liliput, que recebe a visita do rei de Blefuscu para comemorarem a promessa de casamento entre seus dois filhos. O conflito se estabelece os dois reis se desentendem por causa da escolha da música que deverá ser tocada na casamento: o hino de Lilliput ou de Blefuscu. O último sente-se ofendido e declara guerra a Liliput. Gulliver é apenas o elemento que ajuda os dois reinos a se entenderem em nome do amor dos dois jovens soberanos, que acabam se casando. O filme termina com a partida de Gulliver em um barco. Ao longo do filme muitas canções, principalmente cantadas pelos príncipes, deu um formato de musical e conto de fadas que termina com um casamento. O mais próximo do romance foi o fato de o personagem ser o mesmo, os dois reinos de pessoas pequenas e os nomes desses reinos. O restante foi totalmente modificado.

Alguma fidelidade ao livro ocorreu na adaptação de 1960 e 1977. Na primeira, mostra a noiva de Gulliver. No entanto, diferente do livro, ela embarca no mesmo navio para seguir viagem. O restante do roteiro tem pouco do livro apesar de as aventuras se passarem na terras de Lilliput e dos gigantes. O final também é totalmente diferente do livro dando uma ideia de que ambos tiveram uma forma de alucinação e sonharam toda a viagem sem que houvesse uma explicação plausível para isso. Ficou o diálogo final dos dois, mostrando que, apesar de ter sido tudo um sonho, eles tiraram lições com a história que viveram.   

Na segunda, a cidade de onde Gulliver parte é Bristol e o ano é o mesmo, 1699. Também aparece a sua esposa de quem ele se despede antes de partir no navio. A tempestade e o naufrágio na ilha de Lilliput, os conflitos entre esse país e Blefuscu se mantiveram o mais próximo possível do livro. A solução para encaixar Gulliver como um homem de tamanho normal entre pessoas tão minúsculas foi a animação em desenho. Trata-se de uma linguagem bastante complicada para fazer o espectador aceitar livremente, pois o filme inicia com pessoas normais e só depois, na ilha de Lilliput, a história se desenvolve com os personagens em desenho animado. Em animação, os personagens possuem expressões e gestos muito diferentes se fossem feitos por atores, como foi o caso de Richard Harris. Segundo sites de cinema, esse filme não foi bem recebido tanto pela crítica quanto pelo público. 

Diferente de todos, a série de 1996 foi a mais próxima de tudo o que se fez até então. Pelo fato de não ser um filme limitado a duas horas de duração, e pela complexidade de todo o romance e suas quatro viagens, a série buscou abordar ao máximo toda a história de Jonathan Swift, diluindo em seus capítulos as aventuras vividas por Gulliver. Para resolver esse problema, as imagens funcionam como o olhar do narrador, ou seja, ao invés de contar, ele mostra com o seu “olho” que é a lente da câmera. 

Quanto ao filme de 2010 e o desenho animado da década de 1960, só tem em comum a aventura em um reino habitado por pessoas muito pequenas. Porém, podemos identificar adaptações que se servem de um motivo ou tema para desenvolver as suas histórias. No caso da série em animação para a TV, Gulliver é um jovem que tem por objetivo encontrar o seu pai em uma ilha em que naufragou. Entre os habitantes de Lilliput, ele tem amigos que o auxiliam na tarefa, mas enfrentam o comandante Leeck por causa do mapa de um tesouro. O tipo de personagem (um jovem solteiro), os valores de Gulliver (acompanha o seu pai em uma viagem) são totalmente diferentes das outras histórias (um médico cirurgião que deixa esposa e filhos em casa e parte em aventuras pelo mar). O próprio nome é diferente: Gary Gulliver ao invés de Lemuel Gulliver. Isso pode se dever ao fato de que os roteiristas não queriam se referir ao personagem do romance, mas a outro com nome parecido, já que a época retratada no desenho animado era outra.

Quanto ao filme de 2010, o nome do personagem é o mesmo do livro (Lemuel Gulliver). Porém, a história se passa no tempo presente, ele é solteiro e apaixonado pela redatora do jornal em que ele trabalha. A chegada a Lilliput e a sua permanência tem peripécias muito pouco a ver com o livro. Uma das poucas é a cena em que Gulliver apaga um incêndio no castelo, salvando o rei de Lilliput, ao urinar sobre o fogo e ganha a confiança dos lilliputianos. Porém, no livro, Gulliver faz o mesmo, mas salva a rainha e ainda é punido.

Além do mais, o filho do rei de Blefuscu enfrenta Gulliver vestindo uma gigantesca armadura que funciona como um robô. Inclusive, mais se parece com uma versão de Homem de Ferro, o super-herói das histórias em quadrinhos da Marvel. A partir da metade da história, Gulliver encontra a editora do jornal e volta, no final do filme, com ela para casa. O filme traz uma linguagem que mistura o antigo com coisas contemporâneas, como é o caso da trilha musical que traz rock e heavy metal. Esse último filme, mostra uma mudança total no personagem: de homem fracassado afetiva e profissionalmente a um repórter de sucesso no jornal em que trabalha que mantém um relacionamento com a redatora. 

De todas essas, entre outras tantas adaptações para TV e cinema, podemos observar como um romance, que foi um grande sucesso em sua época, pode ter inspirado outras obras utilizando linguagens diferentes. O romance de Swift mantém-se como um clássico que está na memória das pessoas como um conto de fadas. Certamente, nem todas as pessoas no mundo conhecem a obra do escritor irlandês, mas nas bibliotecas escolares ainda podemos encontrar muitas adaptações literárias ao alcance dos jovens. A partir de programas de incentivo à leitura, isso faz com que se perpetue a história no inconsciente das pessoas e vejam nessas adaptações para TV e cinema, outra forma de comparar e debater a obra na sua escrita original.